Abençoada guerra

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Publicado sexta-feira, 5 de outubro de 2001 as 17:41, por: cdb

O Vaticano, através de seu porta- voz, Joaquín Navarro-Valls, dia 24 de setembro abençoou a guerra (contra quem?) declarada por Bush. Às vezes, é mais prudente agir do que ficar passivo, disse Valls. Nesse sentido, o papa não é um pacifista, porque em nome da paz algumas injustiças horríveis foram cometidas.

O Vaticano tem razão. Pacifista extremado, João Paulo II nunca foi, até porque participou da Segunda Guerra em defesa de sua querida Polônia. E, em 1995, exaltou os méritos da Resistência Francesa. Como se sabe, os partisans franceses não lograram expulsar a Gestapo das ruas de Paris com flores nas mãos. Pelo contrário, praticaram sobre os inimigos as mesmas barbaridades que antes condenavam, como a tortura. Maiores detalhes com Marguerite Duras em La douleur (A dor).

Não só em nome da paz se cometeram injustiças. Em nome da democracia também. No Cone Sul, a Casa Branca e a CIA implantaram, nos anos 60 e 70, as ditaduras militares do Brasil, do Uruguai, do Chile e da Argentina. Em nome de Deus, a Igreja promoveu as Cruzadas, entre os séculos 11 e 13, para massacrar o Islã. Em 1099, Godofredo de Bulhões conquistou Jerusalém, onde entrou cavalgando sobre milhares de cadáveres de judeus e muçulmanos.

O argumento de que tais atrocidades devem ser compreendidas dentro do contexto histórico em que ocorreram, quando a mentalidade era outra, fica invalidado por ter a Igreja, como paradigma supremo, a prática e a palavra de Jesus: os Evangelhos, muito anteriores às Cruzadas. Bem dizia Toynbee, quem conhece a história da Igreja acredita mesmo que ela é uma instituição divina, caso contrário já teria desaparecido.

Em nome da Igreja católica, Navarro-Valls acrescentou: Se alguém faz um grande mal à sociedade e se há risco de que venha a fazer isso de novo, caso permaneça livre, você tem o direito de recorrer à autodefesa em nome da sociedade que lidera, mesmo que os meios escolhidos possam ser agressivos. Às vezes, a autodefesa implica uma ação que pode levar à morte de uma pessoa.

Enquanto João Paulo II clamava pela paz na Armênia, o porta-voz do Vaticano nada mais fez do que repetir o princípio do tiranicídio, cunhado por meu confrade Tomás de Aquino. Se a morte do tirano significar o fim do terror sobre o povo, que seja assassinado o tirano (cf. Suma II, II, art. 7 e q. 40). Pena que isso seja invocado quando ainda não há nenhuma prova cabal de que Bin Laden, ex-agente da CIA, e o povo afegão, são os responsáveis pelos hediondos atentados aos EUA.

O que me constrange, como católico, é jamais ver o Vaticano aplicar o princípio tomista da autodefesa quando se trata dos pobres, como agricultores expulsos de suas terras ou famílias atingidas pela construção de barragens. Então multiplicam-se os apelos aos métodos pacíficos. E quem se defende da agressão policial, como em Eldorado dos Carajás (cujas mortes de 21 sem-terras permanecem impunes), é tratado como belicoso.

Lá vai o Superbush atirar seus mísseis, como confetes, sobre as choças dos pobres afegãos. Tudo, agora, sacralizado pelas bênçãos do Vaticano com o qual, felizmente, Deus não se confunde.

* Frei Betto, frade dominicano e escritor, é autor do romance “Entre Todos os Homens” (Ática).