Abbas leva pedido de Estado palestino à ONU

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Publicado sexta-feira, 23 de setembro de 2011 as 17:55, por: cdb

Abbas leva pedido de Estado palestino à ONULegenda:Presidente palestino Mahmoud Abbas entrega carta ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pedindo o reconhecimento ao Estado palestino, durante a 66a Assembleia Geral da ONU, em Nova York (reuters_tickers)

Por Alistair Lyon e Arshad Mohammed

NAÇÕES UNIDAS (Reuters) – O presidente palestino, Mahmoud Abbas, pediu nesta sexta-feira à ONU que reconheça a criação de um Estado para o seu povo, mas o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse que só negociações diretas poderão resultar na paz.

Abbas entregou ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, uma carta solicitando adesão plena palestina à entidade, algo que o Conselho de Segurança começará a discutir na segunda-feira. Os EUA já avisaram que vão vetar o pedido se ele for levado a votação.

“Não acredito que alguém com um pingo de consciência possa rejeitar nossa solicitação para uma adesão plena às Nações Unidas e nossa admissão como um Estado independente”, disse Abbas na Assembleia Geral, onde foi aplaudido de pé.

Tentando evitar um confronto no Conselho de Segurança, o chamado Quarteto de mediadores do Oriente Médio — formado por EUA, Rússia, União Europeia e ONU — pediu a retomada das negociações diretas dentro de quatro semanas, com o objetivo de alcançar “progressos substanciais” em seis meses e um acordo definitivo dentro de um ano.

O Quarteto pediu que Israel e os palestinos apresentem dentro de três meses suas propostas relacionadas a questões territoriais e de segurança.

Cronogramas anteriores para as negociações, inclusive o prazo de um ano para a conclusão do processo de paz sugerido na sessão de 2010 da Assembleia Geral pelo presidente norte-americano, Barack Obama, fracassaram.

A decisão de Abbas de recorrer à ONU ilustra a redução da influência dos EUA no Oriente Médio, num momento de profunda turbulência política nos países árabes, e de alterações nas alianças diplomáticas que deixaram Israel num isolamento ainda maior.

Em seus discursos, Abbas e Netanyahu disseram estar de mãos estendidas um ao outro, mas culparam seus adversários pelo fracasso de iniciativas de paz anteriores.

“Não podemos alcançar a paz por meio de resoluções da ONU”, disse Netanyahu, exigindo que os palestinos reconheçam Israel como um Estado judaico, algo que eles rejeitam por considerarem que seria prejudicial aos direitos dos refugiados palestinos.

Netanyahu se ofereceu para se reunir com Abbas imediatamente em Nova York, minutos depois de Abbas declarar que uma pré-condição para isso deve ser o fim da atividade colonizadora israelense na Cisjordânia.

DESCRENTES

O pedido à ONU reflete a descrença dos palestinos com o processo de paz após 20 anos de negociações frustradas sob mediação dos EUA, principais aliados de Israel. Os palestinos se queixam também da incessante ampliação dos assentamentos judaicos em território ocupado.

“Esta política (de assentamentos) irá destruir as chances de obtenção de uma solução com dois Estados, e… ameaça abalar a estrutura da Autoridade Nacional Palestina e até mesmo a sua existência”, declarou Abbas.

Foi a primeira vez que ele falou tão claramente sobre a possibilidade de extinção da Autoridade Nacional Palestina, num sinal das duras dificuldades que essa instituição enfrenta para gerir as cidades da Cisjordânia, dependendo de ajuda financeira internacional.

A dissolução da AP iria impor a Israel a responsabilidade por toda a Cisjordânia, o que seria um ônus econômico e de segurança para o Estado judeu.

Políticos israelenses e norte-americanos já ameaçaram retirar a ajuda financeira à ANP como represália pelo pedido de adesão à ONU, o que poderia complicar ainda mais a situação da instituição, que emprega 150 mil pessoas.

Os delegados israelenses permaneceram no plenário durante o discurso de Abbas, que foi pontuado por aplausos, especialmente quando ele citou um alerta feito à ONU em 1974 por seu antecessor, Yasser Arafat: “Não deixem que o ramo de oliveira caia da minha mão”.

Na Cisjordânia, bandeiras palestinas e retratos de Abbas e Arafat envolviam os edifícios numa praça de Ramallah onde os palestinos assistiram ao vivo, num telão, ao discurso do presidente.

“Viemos participar com o nosso povo do pedido por nossos direitos”, disse Mohammed Hamidat, de 40 anos. “Com os horizontes atualmente fechados, essa é a única coisa que podemos fazer, mesmo que o resultado seja o fracasso. Já faz anos que não vemos nada de novo; este pode ser um primeiro passo.”

Já o colono israelense Meir Bartler, de 25 anos, declarou: “Não ligamos para o que eles querem na ONU. Temos a Bíblia, que diz que a terra de Israel pertence ao povo judaico.”

Um mar de desconfiança separa os israelenses dos palestinos, e ambos veem sua existência ameaçada em meio à disputa por fronteiras, questões de segurança, refugiados e a posse de Jerusalém.

Divergências políticas entre os palestinos e questões políticas internas dos EUA, onde há forte apoio a Israel, complicam ainda mais os esforços para aproximar os envolvidos.

A ONU estabeleceu em 1947 que a Palestina, então um protetorado britânico, deveria ser dividida entre um Estado judeu e um Estado árabe. Mas os governos árabes imediatamente rejeitaram a decisão e declararam guerra ao recém-criado Estado de Israel, que então capturou territórios além daquilo que previa a partilha da ONU, fazendo com que centenas de milhares de palestinos se tornassem refugiados.

Numa guerra posterior, em 1967, Israel ampliou-se ainda mais, capturando vários territórios vizinhos, inclusive a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental — territórios hoje reivindicados pelos palestinos para a criação do seu Estado. Israel já desocupou a Faixa de Gaza, hoje sob controle do grupo islâmico Hamas, mas diz que nunca irá abrir mão do lado leste de Jerusalém.

(Reportagem adicional de Nidal Almughrabi em Gaza; Tom Perry em Ramallah; Dan Williamse em Jerusalém; e John Irish, Ali Sawafta, Louis Charbonneau e Patrick Worsnip)

Reuters