AAA 27 de Setembro de 2011 – 12h29 John Pilger: Guerra e compras, extremismo que nunca diz seu nome

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Publicado terça-feira, 27 de setembro de 2011 as 10:05, por: cdb

Procurando uma livraria que já lá não estava, entrei num labirinto desenhado como uma verdadeira armadilha. Sair dali tornou-se uma ilusão distante, tal como Alice quando passou para o outro lado do espelho. As paredes de vidro curvavam-se em círculos concêntricos enquanto uma “loja” se fundia com outra: a Armani tornava-se a Dinki Di Pies.

Por John Pilger, em resistir.info
As “saídas” desembocavam num sem número de novas “ofertas” e “oportunidades únicas”. Ao procurar direções acabei por comprar um par de óculos de sol: qualquer coisa para sair dali. Era uma visão do inferno. Trata-se do mega centro comercial de Westfield.

Isto se passou em Sidney – onde começou o império Westfield – num centro comercial que não tem nem a metade do tamanho daquele que abriram em Stratford, East London, em 13 de setembro último. Ali podemos encontrar “tudo”, como dizia Jonathan Glancey, um crítico de arquitetura: da Apple à Primark, do MacDonald’s ao KFC e ao Krispy Kreme.

Há um cinema com 17 salas e com “luxuosos lugares vip” e uma gigantesca e não menos luxuosa sala de bowling. Tracey Emin e Mary Portas são os nomes de quem dirige a “equipa cultural” da Westfield. O maior casino lá do sítio olhará de cima uma rua “24-hour lifestyle” a que chamam The Arcade. Essa mesma via será a única forma de acesso aos Jogos Olímpicos de 2012 por onde terão de passar 10 milhões de pessoas. A mensagem simples e grotesca do “compra, compra” foi aquela escolhida por Londres para acolher o mundo.

“Se virem o filme da Disney Wall-E”, escrevia Glancey em 2008, “certamente reconhecerão Westfield e centros comerciais do mesmo gênero. No filme, os humanos, tendo abandonado o planeta terra que a sua própria ganância destruíra, vivem uma vida absolutamente sedentária que se resume a comer e consumir. Têm um corpo redondo e atarracado e perderam totalmente o uso das suas pernas.

Será que é assim que vamos acabar? Ou será que vamos cair nas profundezas de uma recessão gigantesca… sem nada com que comprar nem onde comprar?” Numa imediaticidade menos apocalíptica, Westfield é “um passo rumo ao nosso desejo coletivo de destruir a vida e a cultura tradicional das nossas cidades, assim como a sua arquitetura, comprando cada vez mais.”

O plano inicial de desenvolvimento da cidade de Stratford invocava Barcelona: uma grelha bem definida de ruas de lojas e habitações. Moderna, civilizada. Depois disso os Olímpicos impuseram-se e com eles a Westfield, uma grande corporação patrocinadora do evento.

O mega centro comercial, o maior da Europa por sinal, foi construído no meio de um nevoeiro de grandes blocos de apartamentos não muito longe dos locais onde ocorreram os distúrbios recentes. Os seus produtos de “designer”, feitos à custa da mais barata e arregimentada mão-de-obra, são chamativos para os mais endividados.

O fato de situar-se num local onde os trabalhadores londrinos costumavam produzir comboios – milhares de carruagens, locomotivas, vagões comerciais – naquilo a que outrora se chamou produzir, desperta-nos um interesse melancólico. Os empregos do mega centro comercial não produzem absolutamente nada e são muito mal pagos. É um símbolo destes nossos tempos extremos.

Frank Lowy é co-fundador da Westfield, bilionário israelense-australiano, está para o comércio como Robert Murdoch para os media. Westfield é proprietário ou tem participações em mais de 120 centros comerciais em todo o mundo.

A torre de Sydney, a estrutura mais visível da cidade, tem estampado o seu nome: “Westfield”. Lowy, um antigo comando israelita, doa milhões ao estado de Israel e em 2003 fundou o “independente” Instituto Lowy para as Relações Internacionais (Lowy Institute for Foreing Affairs) que promove a política externa de Israel e dos Estados Unidos.

No mesmo dia em que abriu o centro comercial de Stratford, os investigadores de Unicef afirmavam em relatório que as crianças britânicas eram apanhadas numa “armadilha materialista” que consistia em “comprá-los” com produtos de marca. Os pais de rendimento reduzido sentiam “uma pressão tremenda da sociedade” para comprar “roupas de marca, sapatilhas de marca e tecnologia” para as suas crianças. À publicidade televisiva e outras formas de sedução da “cultura do consumo” juntam-se os baixos rendimentos e longas horas de trabalho, como responsáveis pela situação.

As crianças contaram aos investigadores que prefeririam passar mais tempo com a sua família e ter mais atividades ao ar livre, mas isto na maior parte das vezes não era possível. Assim como “segurança social” se tornou numa palavra maldita, também o equipamento social para os jovens e as associações juvenis estão a ser progressivamente eliminados pelas autoridades locais.

Há quatro anos, a Unicef publicou uma tabela relativa ao bem-estar das crianças em 21 países industrializados. O Reino Unido encontrava-se no fim da tabela. Um quinto das crianças britânicas vive na pobreza: um número que se prevê aumentar no ano das Olimpíadas. A prioridade da classe política britânica, independentemente do partido, é fazer o cidadão comum pagar o “déficit”, termo cínico e capcioso usado para as dádivas gigantescas a bancos corruptos, e para travar sórdidas guerras coloniais que servem para roubar os recursos de outros países. Isto é o tipo de extremismo que nunca diz o seu nome.

É um extremismo que castra as sociais-democracias, que foram a redenção europeia do pós-guerra. O empobrecimento forçado da Grécia, com as exorbitantes contrapartidas exigidas pela banca alemã e francesa, levará provavelmente a outro golpe fascista. O empobrecimento forçado de milhões de britânicos levado a cabo pelo “antigo regime” de David Cameron, com o seu crescente estado policial e burguesia complacente, especialmente nos media, produzira mais motins: nada é mais certo.

Poderemos contar com o extremismo do apartheid para despoletar tal resultado, e pouco importará o lustro consumista hermeticamente fechado num gigantesco centro comercial. Perspectiva-se uma democracia para os ricos e totalitarismo para os pobres, e não só; e claro “intervenção liberal”, como lhe chamou num tom aprovador o The Guardian, para aquelas regiões demasiado frágeis para resistirem à “precisão” dos nossos mísseis Brimstone.

Fui noutro dia ao Parliament Square. O gráfico que mostrava os crimes estatais, da autoria do ativista pela paz e justiça Brian Haw, fora finalmente retirado pela polícia metropolitana. Ela sabia que Brian já não lhes podia fazer frente, tanto física como legalmente, como o fizera durante uma década. Brian morreu em Junho passado. Ao visitá-lo durante um natal gélido, fiquei emocionado pela maneira como persuadia os mais simples transeuntes e com a força da sua coragem. Necessitamos agora de milhões como ele. Urgentemente.