AAA 26 de Agosto de 2011 – 22h00 Vladimir Maiakovski: Incompreensíveis para as massas

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Publicado domingo, 28 de agosto de 2011 as 06:57, por: cdb

Vladimir Vladimirovitch Mayakovsky (1893-1930) foi um poeta, dramaturgo e teórico russo, frequentemente citado como integrante do seleto grupo dos maiores poetas do século 20. Fortemente impressionado pelo movimento revolucionário russo e impregnado desde cedo pelas obras socialistas, ingressou aos quinze anos na bancada bolchevique do Partido Social-Democrático Operário Russo. Foi justamente chamado de “Poeta da revolução”.
Fez inúmeras viagens pelo país, aparecendo diante de vastos auditórios para os quais lia seus versos. Viajou também pela Europa Ocidental, México e Estados Unidos. Sua obra, profundamente revolucionária na forma e nas ideias que defendeu, emprega a linguagem do dia a dia, sem nenhuma consideração pela divisão em temas e vocábulos “poéticos” e “não-poéticos”.

Entre escritor
e leitor
posta-se o intermediário,
e o gosto
do intermediário
é bastante intermédio.

Medíocre
mesnada
de medianeiros médios
pulula
na crítica
e nos hebdomadários.

Aonde
galopando
chega teu pensamento,
um deles
considera tudo
sonolento:
– Sou homem
de outra têmpera! Perdão,
lembra-me agora
um verso
de Nadson…
O operário
Não tolera
linhas breves.
E com tal
mediador
ainda se entende Assiéiev

Sinais de pontuação?
São marcas de nascença!
O senhor
corta os versos
toma muitas licenças.

Továrich Maiacóvski,
porque não escreve iambos?
Vinte copeques
por linha
eu lhe garanto, a mais.
E narra
não sei quantas
lendas medievais,
e fala quatro horas
longas como anos.
O mestre lamentável
repete
um só refrão:
– Camponês
e operário
não vos compreenderão.
O peso da consciência
pulveriza
o autor.
Mas voltemos agora
ao conspícuo censor:
Campones só viu
há tempo
antes da guerra,
na datcha,
ao comprar
mocotós de vitela.

Operários?
Viu menos.
Deu com dois
uma vez
por ocasião da cheia,
dois pontos
numa ponte
contemplando o terreno,
vendo a água subir
e a fusão das geleiras.

Em muitos milhões
para servir de lastro
colheu dois exemplares
o nosso criticastro.
Isto não lhe faz mossa –
é tudo a mesma massa…
Gente – de carne e osso!!

E à hora do chá
expende
sua sentença:
– A classe
operária?
Conheço-a como a palma!
Por trás
do seu silêncio,
posso ler-lhe na alma –
Nem dor
nem decadência.
Que autores
então
há de ler essa classe?
Só Gógol,
só os clássicos.
Camponeses?
Também.
O quadro não se altera.
Lembra-me e agora –
a datcha, a primavera…
Este palrar
de literatos
muitas vezes passa
entre nós
por convívio com a massa.

E impige
modelos
pré-revolucionários
da arte do pincel,
do cinzel,
do vocábulo.

E para a massa
flutuam
dádivas de letrados –
lírios,
delírios,
trinos dulcificados.

Aos pávidos
poetas
aqui vai meu aparte:
Chega
de chuchotar
versos para os pobres.
A classe condutora,
também ela pode
compreender a arte.

Logo:
que se eleve
a cultura do povo!
Uma só,
para todos.
O livro bom
é claro
e necessário
a vós,
a mim,
ao camponês
e ao operário.

In Antologia Poética, Tradução: E. Carrera Guerra, São Paulo, 1983