A volta do Lagarto: As milícias brasucas estão por aí

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Publicado domingo, 26 de agosto de 2001 as 14:23, por: cdb

Uma das vertentes políticas que mais choca o leitor de jornais será a chamada bancada dos “crentes” – e, faute de mieux, as promessas que os políticos recém-religiosos fazem ao eleitorado “crente”. Acostumados que estamos ao ecumenismo tipicamente brazuca, nada de novo nas escrituras, portanto. Mas o problema é bem outro: os desdobramentos irracionais desses pontilhismos religiosos e até onde podem chegar os garotinhos das novas fés.
Já que o que acontece por lá a gente logo copia por aqui, falamos da mais nova praga dos EUA: as “militias”. O ATF, o órgão gringo conhecido como “Birô de Tabacos e Armas”, tem se dado a combater essas milícias, armadas, hoje mais de 300 naquele país. “Seus líderes têm um sonho. Dizem que o sonho coincide com o que, digamos, Thomas Jefferson falou e com certos extratos da Bíblia que eles recortaram. Compram armas, arrebanham os descrentes na vida…está fundada uma nova milícia”, disse a este repórter o agente James Gallipoe, de Los Angeles.
No Brasil, os números são assustadores. Uma legião que varia entre 30 e 35 milhões de fiéis brasileiros (185 Maracanãs lotados) acreditou que o juízo final, ou o dia do apocalipse, poderia ter acontecido no ano 2000. Os números se referem aos dados fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Instituto Cristão de Pesquisas (ICP), dando conta dos brasileiros evangélicos, o que inclui membros de igrejas como a Presbiteriana, Batista, Metodista, Assembléia de Deus, Deus é Amor e Universal do Reino de Deus. Acreditam no fim do mundo baseados nas leituras dos textos de Mateus, Habacuque e do Livro dos Provérbios.
Essa diversidade de datas e meios pelos quais virá o juízo final reside em várias interpretações bíblicas do capítulo 4º, versículo 18, onde se faz menção à vinda da “luz”, que arrebatará os fiéis aos céus. E mais: segundo a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Igreja Católica “perde”, em média, só no Brasil, 600 mil fiéis por ano para outras religiões, sobretudo as apocalípticas.
Há membros de seitas que esperam o fim do mundo para qualquer hora, desde agora Em 1992, por exemplo, as seitas coreanas Bank ik Ha e Missão Taberá, do Brás (zona leste de SP), anunciaram o fim do mundo para o dia 28 de setembro daquele ano – também escolhido como o ano “final” pela seita carioca Auto-Clamor.
A Missão Taberá postulava que a língua dos anjos que desceriam do céu seria o coreano. E que as “bestas” do apocalipse poderiam ser identificadas por trazerem o “código de barras” na testa (três séries de seis barras, igual à Besta 666…).
Nesse brazilzão desesperançado, está portanto criado o terreno ideológico que deu vida às poderosas milícias dos EUA. Franz Kafka já alertava que nós, humanos, não sobrevivemos sem um lar ideológico (ao que ele chamou de homus domesticus) Este o novo lar oferecido aos brazucas “murchos de coração e de fé” é perigoso porque irracional, com interesses articulados ao prazer da criatividade de seus mentores. Mas não foi sempre assim???

*Claudio Tognolli é jornalista e professor universitário