A razão do Estado

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Publicado segunda-feira, 24 de março de 2003 as 19:10, por: cdb

Todos estão de acordo. A não ser alguns poucos, entre eles destacados âncoras da televisão que chegam ao êxtase quando anunciam o sucesso das tropas norte-americanas. A posição oficial brasileira diante do conflito militar no Oriente Médio é a mais sensata porque corresponde aos sentimentos e à vontade de nosso povo. Um governo pode e deve sofrer oposição, mas há atitudes e princípios que correspondem ao senso geral da ética. Se em qualquer circunstância temos que exercer esse sentimento ancestral – a que devemos a supremacia dos homens sobre a natureza e a construção da História -, há momentos em que com ele coincidem as razões conjunturais do Estado. Nesse momento – é a avaliação dos mais competentes observadores da elite intelectual brasileira – é conveniente ao nosso País alinhar-se à posição da França, da Rússia, da Alemanha e da China. Não só porque esses países defendem o cumprimento das regras de convivência internacional estabelecidas pela Carta das Nações Unidas, mas, sobretudo, porque eles oferecem a primeira e efetiva resistência ao totalitarismo mundial que os Estados Unidos vêm construindo, sob o rótulo de “globalização”, a partir da capitulação da União Soviética. É preciso notar que países em situação mais delicada do que a nossa, como o México (com um governo pró-ianque, o de Vicente Fox) manifestaram posição semelhante à nossa. E que dizer da Nicarágua que, incluída por Bush entre os “paises que apóiam os Estados Unidos”, apressou-se a desmenti-lo. O Paquistão, tendo ao lado o Afeganistão ocupado por tropas norte-americanas, também disse “não” a Washington.
Dizer “não” aos Estados Unidos de Bush significa dizer “sim” aos Estados Unidos de Jefferson. Dizer “não” à dinastia Bush é dizer “sim” a Grover Cleveland e à sua Liga Anti-Imperialista. Mas essa postura ética exclui, até mesmo para que seja efetiva, qualquer bravata. Não afrontamos ninguém, mas não podemos nos silenciar diante de uma guerra que viola os princípios de convivência internacional e contraria a decisão da maioria do Conselho de Segurança. Nossa posição pode divergir do governo dos Estados Unidos, mas não se afasta do pensamento fundador da grande república do norte. Afinal, esta é também a posição de alguns senadores contemporâneos, entre eles Robert Byrd, do ex-presidente James Carter e da maioria dos intelectuais norte-americanos.

Um eminente diplomata brasileiro disse a este colunista que é difícil negociar com os Estados Unidos, porque o governo reflete o americano médio, para o qual o resto do mundo não passa de subúrbio a ser evitado. A maioria dos congressistas norte-americanos não tem passaporte porque não lhes interessa sair do País. George Bush, o novo, apesar de o pai ter desempenhado funções diplomáticas, só conhecia um país estrangeiro, antes de eleger-se presidente – o México, onde passou sua lua-de-mel. Sendo assim, não é fácil fazer com que os norte-americanos aceitem o patriotismo dos outros, que aceitem os costumes dos outros. Por isso mesmo, a reação maior dos norte-americanos contra a guerra se deu nas cidades maiores, que – pela imigração e pelas comunicações – são cosmopolitas, como é o caso de São Francisco, de Chicago e de Nova Iorque, a mais universal das cidades contemporâneas.

“A quelque chose, malheur est bon”, dizem os franceses. A situação externa, neste momento, coloca em segundo plano as divergências domésticas. Queiramos ou não, teremos que encontrar, oposição e governo, uma agenda comum de ação para construir a necessária solidariedade interna. O mundo já ficou diferente depois que as tropas norte-americanas atravessaram a fronteira do Iraque. Os norte-americanos, depois da reação do resto do mundo, terão que optar entre declarar guerra contra todos os outros povos ou moderar seu apetite de grandeza e sua arrogância, denunciada por muitos de seus próprios compatriotas como o senador Fullbright. É diante desse novo mundo que o Brasil deverá cuidar de um projeto nacional estratégico que nunca houve porque