A perigosa compulsão da esquerda à autodestruição

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Publicado quarta-feira, 27 de novembro de 2002 as 15:51, por: cdb

Cuidado com o andor que o santo é de barro”. Com essa frase, extraída do vasto repertório da sabedoria popular, comecei e encerrei minha fala num encontro com companheiros sindicalistas em Cajamar (SP), cuja pauta geral era “Os sindicalistas e o governo Lula”.
Assuntando aquilo tudo e assustado com os discursos um tanto irados e precipitados de alguns dos meus iguais – mas nem tão iguais assim – , eu, que geralmente tenho posturas mais à esquerda, achei prudente esfriar um pouco a fervura, colocando essa frase para a “companheirada” como uma sugestão para reflexão, já no final das discussões, e dedicando-a em especial a Antônio Carlos Spis, presidente da CUT-SP, que estava à mesa conduzindo os trabalhos.

Lembrei, na ocasião, dos casos dos governos Vitor Buais, Luiza Erundina, Cristovam Buarque, Olívio Dutra, entre outros. Governos de companheiros nossos da esquerda que ajudamos a eleger e paradoxalmente ajudamos a derrubar. Quadros partidários de primeira linha que foram incinerados na fogueira da imaturidade e irresponsabilidade sinistras. E pensar que é na língua italiana que a palavra sinistra é a tradução da esquerda.

A que se deve essa incapacidade mórbida de compreender que somos co-responsáveis pelo êxito ou fracasso dos governos de esquerda que ajudamos a eleger e que estes, em primeiríssima instância, são governos do partido e não apenas daqueles quadros partidários que foram eleitos? A que se deve essa total falta de cumplicidade, responsabilidade e maturidade? Sabe-se lá.

Sabe-se que, apesar de todo beija-mão e adoração por que passa agora o presidente eleito, ele não é nenhum santo. Não no que tange as suas qualidades espirituais e morais, obviamente, mas no sentido de que não é capaz de operar nenhum milagre e não transformará num piscar de olhos, como uma divindade, a terra devastada e os escombros a que os oito anos de governo tucano relegaram o Brasil, num paraíso de empregos, bons salários, saúde e dignidade para todos. Portanto, devagar com o ardor, digo, com o andor, que o santo – que, a rigor, nem santo é – é de barro.

Mas Lula já foi capaz de operar um pequeno grande milagre: o de tirar a auto-estima do brasileiro do limbo em que se encontrava. E isso já se pode constatar nas ruas. Já se pode constatar nas repartições públicas, onde funcionários, que estão há oito anos sem reajuste salarial, retomam o entusiasmo e agora trabalham com mais empenho. Sussurra-se nos corredores do Banco Central que um dos principais “ungüentos”, que ajudaram a amainar a febre e a escalada “estratosférica” da cotação do dólar, está no fato de seus funcionários, no entusiasmo da eleição de Lula, estarem mais aplicados na busca de soluções mais eficientes no controle da política monetária e cambial.

Já pensaram o que pode ocorrer se esse estado de ânimo que ora se espalha por algumas das repartições do governo federal se espalhar pelo País? Não à toa o presidente eleito, já em suas primeiras declarações, avisava que não governaria sozinho e que precisaria do empenho de todos os brasileiros.

Portanto, sindicalistas, empresários e trabalhadores, todos os brasileiros enfim, uni-vos. Ouçamos e respeitemos o chamamento do presidente que elegemos, e que agora encanta e serve de alento, a nós e ao mundo. Não esperemos porém, tal qual crianças ansiosas, que se conserte em alguns meses aquilo que se destruiu em oito ou trinta anos. É impossível atender a todas as demandas reprimidas até então. É preciso tempo.

Não se deseja, é claro, que sindicalistas e trabalhadores deixem de reclamar os seus direitos, o que se espera é que se dê um tempo para que o governo eleito se instale e possa implementar suas políticas. Porque um governo que não pode contar sequer com seus correligionários pode perfeitamente prescindir da chamada oposição. Não é mesmo?

*Lula Miranda é economista e escritor. É também secretário de Formação e Cidadania do SEEL – Sindicato dos Trabalhadores em Editoras de Livros de SP.