A parte de cada um

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado terça-feira, 27 de setembro de 2011 as 10:54, por: cdb

Sempre que ocorre um crime, seja contra o patrimônio oucontra a vida, o primeiro sentimento que irrompe em boa parte da populaçãobrasileira, que clama por mais violência para combater a violência, é o davingança. Setores mais conservadores, à direita, pedem mais polícia, enquanto aesquerda fala em mais educação e distribuição de renda. Se é verdade que aeducação e a economia podem ser aliadas na luta contra a violência, parecepouco provável, porém, que floresça uma nova sociedade apenas porque as pessoastêm mais dinheiro e conhecimento da norma padrão da língua. Se isso fosseverdade, não haveria tantos crimes cometidos por pessoas de fala muito educadae renda per capita muito acima da média.

A política de segurança pública no país se limita, namaioria dos casos, a promover ações que têm por objetivo calar, sufocar,amedrontar e até mesmo eliminar aqueles que reagem com violência contra aviolência de que são vítimas. Uma resposta seletiva, preconceituosa ediscriminatória, que só faz aumentar a corrupção e a insegurança.

O modelo de escola que temos pouco ajuda a transformar arealidade. É resultado da ação de políticas que são definidas por boa parte dosmesmos setores que não se interessam em dividir a renda e o conhecimento entrea população brasileira. E os professores e alunos que ali estão não raro secomportam e defendem pontos de vista muito parecidos com aqueles que seencontram fora dos muros da escola. A disputa de cargos, os interessespolíticos, a falta de condições mínimas de trabalho, estudantes que refletem aviolência de seus lares e dos locais onde vivem, pais que não impõem limites aseus filhos, tudo contribui para o fracasso de uma ação que busca na educaçãorespostas aos anseios de justiça social, paz e harmonia. Mas como a escola poderesponder a essa expectativa se é também violentada diariamente? Se em seurestrito espaço também se reproduz a violência, a ganância, a individualidade,o consumismo, a falta de limites e o estímulo para a busca desenfreada deprazer e poder a qualquer custo?

Nada mais falso do que atribuir a corrupção aos políticosbrasileiros, como se fossem uma casta de privilegiados que não tivessemramificações em toda a sociedade, em cada esquina do país. Como se essespolíticos não fossem também empresários, médicos, advogados, engenheiros,jornalistas, economistas e toda a lista de profissões em maior destaque noBrasil. Como se pudessem chegar ao poder sem o apoio de tantos iguais em suas profissõesou em suas alianças com outros segmentos e até mais diretamente com cadaeleitor, isoladamente.

A corrupção, a violência e outras mazelas do cotidianoformam uma teia pacientemente tecida com a nossa adesão (por mais eventual queseja) ou omissão. Quanto mais ela se estende, mais nos apanha em nosso dia adia. A corrupção não pode ser vista como um fenômeno isolado, pertencente a umacamada social, ou a um determinado partido, ou a um grupo deles, ou a umgoverno. Ou ainda como um desvio moral de determinados cidadãos. É algo maisintrínseco à própria formação da sociedade, à própria estrutura política,econômica e social do país. Mas que não se busque no passado, nas etnias, aexplicação para as infâmias que hoje proliferam.

Neste caldo de cultura, em que, de alguma forma, somos umpouco vítimas e cúmplices, a justiça e a ética se alimentarão da vontade desubverter o cotidiano, de lutar contra as nossas fraquezas, de dizer “não”quando é tão mais cômodo e prazeroso dizer “sim”. De pequenos gestos que jáforam ensinados outrora em boa parte das famílias, noções de honra e dignidade,senso de justiça, recusa ao que não nos pertence ou é imerecido.

Dessa opção por não trilhar o caminho mais fácil, começam aspossibilidades de mudança. De ter a perspicácia de identificar o inimigo, àsvezes tão sedutor, como os meios de comunicação e a publicidade, fortesprotagonistas na criação de identidades, na construção de valores. Como pode amídia –sem um mínimo de hipocrisia– dizer que não é uma das principaisresponsáveis pelo modelo de sociedade que hoje temos? Mídia, igreja, escola–para ficar em apenas três importantes atores sociais– são essencialmenteformadores do caráter da nação.

Juntamente com a elite econômica, intelectual, com oJudiciário e os partidos políticos. Esqueci de alguém? Pode ser, estão todosaí, basta procurá-los, mas atenção: eles são bastante convincentes, dizem ooposto do que costumeiramente praticam.

Verdade seja dita: eles são nós! Nenhum deles sobrevive sema nossa renovada participação e adesão às causas que professam. Quando dizemosque a violência e a corrupção chegaram a um patamar insustentável, resta saberse estamos prontos a repensar as nossas crenças, valores e atitudes, à direitae à esquerda, porque “isso que aí está” é muito parecido com o que nós somos.Ou contribuímos para que assim fosse. Por mais que tenhamos álibis quaseperfeitos. Do tipo “eu não faço parte disso aí”. De alguma forma, ou porque nãotivemos a lucidez de combater quem tínhamos que combater, ou apoiar quemdeveríamos ter apoiado –porque era mais fácil nos isolarmos no egoísmo (àsvezes) de nossas crenças políticas e ideológicas– somos parte do problema.

Nossos menores gestos, nossos “jeitinhos”, nossarelativização das regras quando interessa, nossas justificativas pouco éticasquando os fins justificam os meios, quando é por uma boa causa, ou “é umacoisinha insignificante”, nossas escolhas, nossa voz fraca diante de tantosabusos contribuem para a formação de uma sociedade permissiva, excludente epreconceituosa. A solução começa por aceitar que não somos tão inocentes.