A outra face do crime

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Publicado terça-feira, 31 de maio de 2011 as 10:55, por: cdb

Por CarloZaraujo 31/05/2011 às 13:35

Esquecidos do lado de cá das grades, na porta ao lado, dormindo em nosso quarto e até no berço, neste momento pode estar sendo forjada uma moeda de duas faces onde uma delas é falsa e vai entrar na circulação do mundo do crime.

Todo dia lidamos com os rostos dos criminosos nas páginas dos jornais, nos blogs noticiosos e nas telas de televisão. É a face evidente do crime.

Captura-se o criminoso notório, movimentam-se figuras da mídia, da polícia e das instituições. Todos querem protagonizar com eficiência, com eficácia. Informações privilegiadas acessadas, códigos de honra institucionais violados, segredos de justiça expostos, até as leis são alteradas. A raia miúda cria expectativas, dá palpites, faz simulações. Advogados movimentam-se, a justiça aumenta a sua ?velocidade?, a igreja cauteriza as consciências.

Mas existe outra face do crime, uma face secreta, que é ignorada pelos julgadores e investigadores. Estes se contentam em observar aquela que é fotografada de frente e de perfil, a face evidente. Considerada, medida nas penas, valorada nas estatísticas. Do lado de fora, no reverso da moeda, fica aquela outra, aquela que é a face secreta do crime. Não aparece ninguém para biografá-la, desde a infância, reveladora infância.

Psicólogos não são suficientes, não bastam nem a si mesmos. Conheço um que é pai-de-santo, outro fundou uma igreja. Que entendam de criminosos os políticos, que façam as vezes de técnicos, que legislem punições cada vez mais sofisticadas.

Esquecidos do lado de cá das grades, na porta ao lado, dormindo em nosso quarto e até no berço, neste momento pode estar sendo forjada uma moeda de duas faces onde uma delas é falsa e vai entrar na circulação do mundo do crime.

Rebeldia em tenra idade. Uma estratégia para o prazer, uma fuga para a dor. Dá-se a gênese do inimigo por desobediência às proibições, acentua-se a rebeldia e nascem novos códigos. Desbanca-se a consciência pelo transe das drogas, da fome ou da falsa religião. Desfaz-se o ente moral, prospera a delinqüência.

A face secreta do crime, poucos têm a coragem de olhar. Ao fitá-la corre-se o risco de virar pedra, de assumi-la porque, de uma maneira ou de outra, todos são culpados. Esta face do crime não tem espaço na televisão, não aparece nas primeiras páginas, não permite honorários, não dá votos. Esta face é a estrutura da personalidade de espécie criminológica, de indivíduos dotados de personalidade anormal, que sofrem por reflexo desse estado ou que fazem sofrer a sociedade por atos da sua conduta.

Um dia ficamos surpresos com nossa própria ?cria?: um Quasimodo, um Grendel, que queremos matar, no mínimo prender sob grossas barras de ferro. Porque não suportamos olhar para nós mesmos. Não podemos olhar para o reflexo pavoroso de nossas mentes doentias, sendo que a natureza dessas ?coisas? disformes nos atormenta, nos tortura, mais com a vergonha de nossa pífia humanidade degradada do que por qualquer conceito ético mais exaltado.

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