A omissão da imprensa

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Publicado sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016 as 10:22, por: cdb

Depois de uma batalha tão grande, de tanto apoio à candidatura de Dilma Rousseff, é lastimável enxergar o óbvio: temos o governo que teríamos com o PSDB no poder

Por Maria Fernanda Arruda – do Rio de Janeiro:

Uma avaliação do governo Dilma Rousseff nos leva a pensar (ou lembrar) do binômio economia e humanismo, algo que já não faz parte da lista de preocupações dos “tempos modernos”. Louis-Joseph Lebret, oficial de marinha na Primeira Guerra, depois tornado frade dominicano, em 1942 criou o movimento “Economia e Humanismo”, com uma importância que ultrapassou as fronteiras da Igreja Católica. Lebret esteve no Brasil, foi o formador ideológico da democracia cristã de Franco Montoro e deixou aqui a SAGMACS e a Livraria Duas Cidades. Foi a Duas Cidades o ponto de contatos dos frades dominicanos com Marighella. Marighella morreu, a Livraria não existe mais e nem quem pense em economia e humanismo.

No dia 5 de novembro de 2015 aconteceu a hecartombe da Samarco, empresa que matou 19 pessoas, destruiu uma pequena cidade, arruinou a vida de milhares de pessoas e provocou o maior desastre ecológico já experimentado no Brasil. Agora, depois que o Carnaval passou, o Ministério Público do Espírito Santo pede a condenação da famigerada mineradora em R$ 2 bilhões, como indenização ao povo e ao país. Um delegado de polícia requer a prisão do presidente e mais cinco diretores dessa que é filial da VALE. Não fizeram absolutamente nada: nem a Presidenta da República, nem o seu ministro da Justiça, nem o Ministério do Meio-ambiente, nem o Ministério de Minas e Energia. Esse é o silêncio sepulcral de Brasília. E não farão nada.

Maria Fernanda Arruda
Maria Fernanda Arruda

A VALE e sua filial, Samarco, são agentes de diversas ações criminosas pelo Brasil afora. O que aconteceu em Mariana apenas teve o impacto emocional que não tiveram vários outros vazamentos promovidos por elas, poluição tenebrosa da cidade de Vitória, envolvida pelo “pó preto”, invasão de terras indígenas. É compreensível o silêncio da imprensa, pois que a VALE é uma das maiores consumdoras das páginas de propaganda em todos os jornais e revistas do País. E afinal, o que é a Vale?
Mesmo privatizada, ela é uma empresa que fica sob a responsabilidade do Estado, portanto do Poder Executivo, isso é, da Presidência da República. A acionista controladora da VALE é a Previ, por sua vez ligada ao Ministério da Fazenda, que por sua vez é nomeado por ato de vontade da Presidência da República. E é assim que Dilma Rousseff, ao condenar a Vale, estaria condenando a si mesma. Ela não tem condições para explicar como e porque delegou poderes de gestão da Vale ao Bradesco. O Bradesco não compete com o Banco Itaú, tendo construído o seu próprio espaço: ele comanda a maior exportadora nacional, a que sustenta o Brasil no mundo globalizado e pode gerir as finanças do Brasil, nomeando um funcionário seu para ser Ministro da Fazenda.

Como entender sua postura presidenta? Depois de cinco anos fica bem evidente: está subordinada aos interesses econômicos do mundo globalizado a partir do neoliberalismo, o mesmo que vai afundando o Mundo na maior das crises já vividas pelo Capitalismo. Sua gestão não está interessada em seres humanos em nome de quem ela governaria, e que foram substituídos pelo capital. Com ela, divorciaram-se e afastaram-se o “desenvolvimento” e o “humanismo”.

A hecatombe promovida pela Samarco mereceu a visita aérea da presidenta depois de vários dias e noites já passado. Com que roupa ela iria percorrer a lama tóxica que poderia ter evitado, caso tivesse exigido dos responsáveis pela VALE algo mais do que lucros sempre maiores? Uma ausência excepcional? Não: de modo algum. A desumanidade do atual governo está sendo praticada de forma escancarada.

A postura inflexível com relação à Previdência Social é de desumanidade equivocada. Estudos sérios, que são feitos e repetidos, desde as primeiras tentativas neoliberais do governo FHC, tentanto a decretação da falência do sistema previdenciário, provam que não há déficit. Mas contiinua a ser imposta a necessidade de inviabilizar-se a aposentadoria dos trabalhadores. É simples: senhora Dilma Rousseff, um cortador de cana, um metalúrgico, ou mesmo um bancário, essa gente brasileira tem condições de estar no “mercado de trablaho” por quanto tempo? Mercado de trabalho é expressão de frieza criminosa, que Gustavo Franco usava muito, ao comentar os mecanismos da “mão invisível” que deve ter o poder de governar os homens.

O Ministro da Fazenda pode decidir que não paga o 13°salário dos aposentados nas datas previstas, que afinal o equilíbrio das contas públicas o exige. Ou, melhor dizendo, é preciso assegurar dinheiro para pagar juros. Amanhã, as “autoridades monetárias” poderão decidir que se congele o valor do salário mínimo. O programa social, a herança maior de Lula, não vai se esvaindo?

imprensa

A “solução final” para os povos indígenas vai se acelerando na sua execução criminosa, sob a égide de uma Ministra que representa os interesses do latifúndio. A propriedade da terra é sagrada, é preciso utilizar os agrotóxicos e as sementes transgênicas, para que se exportem grãos. Quando um professor universitário da Universidade Federal da Bahia é retirado de sua casa e morto com um tiro na cabeça, pois que defendia os pequenos agricultores, Brasília o homenageia com o silêncio das múmias. Afinal não era Eduardo Campos, nem uma estrela do mundo da televisão.

Graças a decisão da Presidência da República, o Brasil mantém-se como segundo maior produtor de pó de amianto no mundo. Atividade proibida, levou diretores da Eternit na Europa à cadeia, depois de presos e julgados legitimamente. O pó do amianto produz uma das formas mais dolorosas de câncer incurável, mas todos os reclamos e pedidos encontram ouvidos surdos: não se elimina uma fonte de divisas de exportação.

Assim mesmo,perdoaram multas pesadas que foram legalmente impostas às empresas de previdência privada: vitória da “máfia de branco”. Mantém grandes financiamentos para a “máfia do ensino”. Isso se justifica como política econômica? Justifica o desrespeito ao ser humano?

Depois de uma batalha tão grande, de tanto apoio à candidatura de Dilma Rousseff, é lastimável enxergar o óbvio: temos o governo que teríamos com o PSDB no poder. Este, já deixou claro ao que veio. E o Lula? Caso ele não assuma uma posição clara e firme, afundará junto. E aos brasileiros: começar de novo.

Maria Fernanda Arruda é escritora, midiativista e colunista do Correio do Brasil, sempre às sextas-feiras.

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