A odisséia dos quase famosos

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 7 de outubro de 2002 as 19:33, por: cdb

Vida de artista em início de carreira não é nada fácil. Basta contar quantas vezes uma banda desconhecida passou por situações constrangedoras nos shows, como um defeito no som ou a vaia de uma platéia – e, o pior – formada por meia dúzia de familiares. Você ouviria um disco de um conjunto chamado Atahualpay us Panquis? “Ela foi criada em 1984 para ser a pior banda do mundo”, brinca o ex-líder Carlos Miranda. Conseguiram, talvez, pelas 12 cópias que venderam nos seis anos de existência. “Mas o pessoal gostou do som”, ressalta.

Histórias como essas fazem parte do hall de aventuras que os músicos colecionam e não se envergonham de contar. Mas, os brasileiros que buscam a consagração não querem apenas os 15 minutos de fama cantados pelos Titãs, mesmo que a recompensa venha depois do sacrifício de se expor num açougue, por exemplo.

A banda carioca Totonho e Os Cabra, que lançou o primeiro CD com selo da Trama, vai além do estereótipo de roqueiros e inova na busca de fãs, se apresentando em lugares pouco comuns. Quem passou recentemente por uma rua da Glória, na zona sul do Rio, num final de tarde, ficou boquiaberto com a cena. Quatro músicos e seus instrumentos se espremiam por trás de um balcão de açougue, entre freezers e carnes dependuradas, além de uma tabela de preços fixa na parede, onde se lia – entre outras coisas – chã de dentro a R$ 15 .

Engana-se quem julgou exagero. A banda, claro, não fez o estilo música-pra-afugentar-freguês, e conseguiu atrair os pedestres para o estabelecimento. “O pessoal gostou tanto que o dono do açougue fechou o comércio só para o nosso show”, conta o feliz vocalista Carlos Bezerra, o Totonho, de 37 anos, lembrando que o evento rendeu um especial na MTV.

A próxima parada será no alto de um prédio em construção. Não, eles não vão pular para impressionar os operários. Mas, já houve quedas, bem menores, como da vez em que o baterista caiu de cima dos engradados improvisados como palco, durante as comemorações do aniversário da Rádio Maré, numa comunidade carente do Rio. Os ouvintes ovacionaram. Não se sabe se pelo tombo ou pelo repertório.

Enquanto o internacional Milton Nascimento canta Pelos bares da vida, narrando sua dura trajetória em busca de um lugar nos palcos, os músicos da banda mineira Corpo Delito sentem a poesia na pele. Os seis anos de estrada renderam bons casos que engrossam a lista humorística da convivência em grupo. O último foi no réveillon deste ano, numa estrada de chão rumo a uma pequena cidade em Minas. “Chovia muito e o carro ficou atolado. Tivemos que descer e empurrá-lo. Na correria e com medo de ficar novamente atolado, acabei deixando o tecladista e o baterista para trás”, diz o mui amigo Zé Wilson, líder da banda.

O show ficaria comprometido não fosse o empenho dos abandonados, que caminharam dois quilômetros sob chuva e chegaram a tempo da apresentação. E quem acha que depois da tempestade vem a bonança, enganou-se. O descanso foi um desastre: uma cama de casal na casa de um amigo teve que suportar quatro homens.

Parece pouco? Em outra apresentação, o Corpo Delito safou-se de uma vaia, quando o vocalista pediu o coro da platéia numa música do Spin Doctor’s. “Houve um silêncio constrangedor”, revela Zé Wilson. A salvação veio de uma voz cansada, lá do fundo do salão, que completou os versos num inglês desengonçado. Era o garçom, fã da banda americana.

Famosos – Histórias como essas, no entanto, fazem parte do cotidiano de quem almeja a fama. Prova disso foi o que passaram os Raimundos, quando partiram de Brasília para São Paulo, onde gravaram o primeiro disco, em 1993. “O pessoal ficou lá em casa, espalhado pelo chão”, lembra Carlos Miranda, que produziu a banda.

“Quando os táxis chegaram, eu fiquei sem fala”, diz Miranda. O quarto-sala do produtor teve que acolher os músicos, o técnico de som, o motorista, um ajudante, dois amigos e duas mulheres. “Foi uma semana sem luz na sala e com muito mosquito”, recorda. Como s