A moda emerge jovem

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Publicado domingo, 16 de janeiro de 2005 as 11:15, por: cdb

Se aprende na escola, sim. Três novas estilistas, que estréiam nesta edição da São Paulo Fashion Week (SPFW), são mais uma prova da atual profissionalização da moda brasileira. Representam essa nova geração que não aprendeu só na prática, que não cria apenas por intuição, que sabe desenhar, cortar, costurar, montar.

Fábia Bercsek, Erica Ikezili e Gisele Nasser estudaram muito – coincidentemente na mesma faculdade e na mesma sala – e chegam agora ao maior evento de moda da América Latina.

“A Fashion Week obriga a gente a crescer”, diz Erica, de 28 anos que reúne características pouco convencionais. Neta de japoneses e evangélica, seu ateliê lotado de peças chamadas de conceituais fica no piso de cima da casa onde funcionava a farmácia do pai, no bairro do Limão, zona norte de SP. Ela olha para cima, para o lado e tenta prever o que acontecerá com a marca, que leva o seu nome, depois do desfile no dia 22. “Minha divulgação até agora foi no boca-a-boca.”

A empresa, com 12 pessoas, não tem equipe de marketing. Não importa. Camisas com um toque oriental e vestidos cheios de apliques florais de Erica Ikezili já estão no Japão e nos Estados Unidos, fora a loja no Shopping Eldorado. A marca recente já nasceu com um pé no mercado externo, o que não era comum há pouco tempo. Só com a abertura da economia, no início dos anos 90, o Brasil percebeu que a moda feita aqui nada tinha de competitiva.

“O mercado era pouco profissional, a indústria têxtil fazia o fio e, assim, ditava a moda”, diz Glaucia de Salles Ferro, coordenadora de marketing da Faculdade Santa Marcelina, que formou as três estilistas. A lista de ex-alunos ilustres tem também Alexandre Herchcovitch.

A instituição lançou o primeiro curso superior em 1987 e a procura era tão pequena que ele quase foi fechado. Na Faculdade Senac, em 1994 havia uma classe com quatro alunos. O crescimento da moda brasileira alavancou a procura pela formação na área e vice-versa. Atualmente, cinco candidatos disputam cada vaga nas instituições mais conhecidas. Existem 27 cursos no País e quase 5 mil pessoas estudando moda, um aumento de 140% desde 1998, ano dos números mais antigos do Ministério da Educação (MEC) sobre essa área.

“Os estilistas se diziam autodidatas como uma defesa. Não tinham onde aprender”, afirma o coordenador de moda do Senac, José Gayegos. Segundo ele, a cópia era regra no País. Os cursos hoje têm aulas de semiótica, história geral e da moda, marketing, negócios, modelagem, produção de moda, planejamento de produto, desenho. O mercado de trabalho só cresce: já são cerca de 5 mil empresas na área de confecção na capital e 30 mil no Brasil. “O mercado é grande e exige o diploma”, garante a coordenadora do curso na Anhembi Morumbi, Carla Marcondes.

Fábia Bercsek, de 26 anos, fala em meio às suas ilustrações que decoram as paredes de seu ateliê e loja, uma sala num prédio da Rua Augusta, na região central. “Eu sempre quis que meus desenhos se tornassem tridimensionais”, conta. Assim como as duas colegas, foi convidada a participar da SPFW depois de desfilar suas coleções no evento Amni Hot Spot.

As duas semanas de moda são organizadas pelo mesmo Paulo Borges e o Amni funciona como uma espécie de incubadora de novos estilistas. Quando prontos, são submetidos ao comitê de profissionais da moda que aprovam ou não a entrada na SPFW. “Tento planejar o que posso vender depois do desfile, mas acredito que nunca serei uma megamarca, comercial”, diz a paulistana Fabia, que já trabalhou para Herchcovitch e integra a equipe da grife Cavalera.

Ela analisa pessoalmente o perfil dos compradores de atacado que se interessam pelos seus vestidos de seda estampados, suas camisetas bordadas. “Não faço modinhas”, garante. Todo o trabalho de confecção é terceirizado, um comportamento já comum entre os jovens estilistas. “É difícil criar e cuidar da produção”, explica Gisele Nasser.

A moça tem uma história típica dos profissionais