A ilusão e o desespero

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Publicado sexta-feira, 6 de setembro de 2002 as 23:42, por: cdb

O Sr. José Serra começa a cultivar uma esperança – a de que possa, ao ultrapassar Ciro Gomes nas pesquisas, colocar-se como a opção conservadora e majoritária no segundo turno, se houver, é claro, segundo turno.

O Sr. Ciro Gomes, recuando ao seu lugar natural, desespera-se. Sinal de seu desespero é o de apelar para o Sr. Antonio Carlos Magalhães como âncora de um de seus programas eleitorais. O chefe político baiano, ainda que não seja mais aquele, controla a maioria dos votos de seu Estado e esses votos já estão no balaio de Ciro Gomes. Nem todos, porque nem mesmo as entidades do candomblé podem garantir a fidelidade nas urnas, como, de resto, não asseguram qualquer outra fidelidade. Mas, é a pergunta, quantos votos teria o Sr. Antonio Carlos Magalhães no resto do Brasil? A resposta é difícil.

Pode ter muitos ou não ter, praticamente, nenhum. Não tendo disputado uma eleição nacional, seu prestígio no resto do Brasil é uma incógnita. Ciro tem o direito de contar com a maioria dos votos da Bahia, como conta (aí, sem dúvida) com a maioria dos votos do Ceará. No Ceará, é verdade, Ciro e Tasso são herdeiros do prestígio de que dispunha o Padre Cícero Romão, que a história mostra ter sido um politiqueiro reacionário e o mito eleva à condição de santo.

Enfim, são, os três, beneficiados pela ingenuidade de uma população que as oligarquias (de que são ambos rebentos ilustres) mantêm na ignorância, a fim de comandá-las alternadamente, no uso dos votos ou dos trabucos, como Padre Cícero as empregou em benefício dos Acióli, há quase noventa anos. Mas, na Bahia, convém dar um desconto na popularidade de Antonio Carlos. Os ventos do Senado também chegaram àquela província.

A esperança de um e o desespero do outro se aliam na ilusão de que podem, um ou outro, derrotar Lula em um segundo turno. Mas, na realidade, e pelo menos até agora, não atingiram a solidez do candidato do PT. É nesse momento que se torna mais exigida a prudência de Lula e de seus companheiros mais próximos. Eles não devem tomar conhecimento dos ataques que lhes serão dirigidos, a menos de que se trate de calúnia e infâmia.

O ex-metalúrgico é beneficiado pela consciência nacional de que é chegada a hora de quebrar certos tabus. Um desses tabus é o de que a política é uma disciplina acadêmica. Não é, nunca foi, e jamais será. As universidades podem formar excelentes especialistas em alguma coisa, ou em coisa alguma, como costuma ocorrer, mas não podem formar líderes políticos. Esses se constroem na dialética da vida.

A participação de Alencar
O programa de Lula na televisão não tem usado todo o potencial de José Alencar. O industrial mineiro é um hábil negociador (se assim não fosse, não teria construído o seu império empresarial) e excelente argumentador. Convencido, como se encontra, de que o Brasil precisa retomar o desenvolvimento com o máximo de autonomia, não lhe será difícil acrescentar mais apoio do empresariado nacional à candidatura do PT.

A aliança entre Lula e Alencar, no fundo, é a de dois homens com a mesma origem, embora tenham usado caminhos diferentes, e vitoriosos, cada um de seu jeito, no confronto com as oligarquias. Na reta final da campanha, conforme membros da cúpula do PT, Alencar irá aparecer mais, para mostrar o programa de Lula como sendo o da solidariedade entre os produtores (patrões e empregados) contra os especuladores.

* Mauro Santayana é jornalista e titular da coluna Questão de Ordem – Os Bastidores de Brasília, da Agência Carta Maior