A história do nosso país

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Publicado terça-feira, 10 de setembro de 2002 as 12:52, por: cdb

Na história do nosso país, assistimos, desde o império independente em 1822, a governos assépticos, desvinculados da realidade do povo que habita o país, importando teorias, ideologias de além mar. Intelectuais “bem intencionados”, influenciados pelos ideais do positivismo, do iluminismo, do liberalismo, do darwinismo e por aí vai.
Chegamos ao ponto de assistir a distorções antagônicas, como é o caso de até à época da abolição, encontrarmos intelectuais se auto-denominarem liberais-escravocratas.
O código civil de 1916 levou quase um século para ser elaborado, o mesmo que ainda está em vigor até 10 de janeiro de 2003, quando finalmente será substituído pelo novo código civil.
A demora de quase um século se deveu aos mais variados motivos.
Uma das questões referia-se ao escravo, que apesar de não ser considerado pessoa para o direito, e sim como coisa, o que, nesse caso, o enquadraria na parte do código referente à propriedade, não estabelecendo, à princípio um impedimento formal para a elaboração do código, contrariava os ideais de intelectuais da época, influenciados pelas idéias abolicionistas provindas da Europa e que queriam um código didático-pedagógico, pois se acreditava que as leis iriam educar o povo, através do escamoteamento da realidade social.
No entanto, no Brasil, um país atípico, os escravos trabalhavam não só como escravos, pois além do trabalho escravo para os seus senhores ainda era-lhes permitido, além do turno de trabalho destinado aos seus senhores, ganhar algum extra, fazendo outros trabalhos e vendendo a sua mão de obra para comprarem suas alforrias, isso sim era um problema, pois nesse caso, o escravo não poderia ser considerado apenas como coisa, mas se realizava negócios, tinha o estado de pessoa.
Outra questão refere-se ao papel desempenhado pela Igreja Católica, que vinculada ao Estado, era responsável pelo registro de batizados e casamentos e não aceitava que o registro passasse a ser civil, alegando que isso afrontaria as famílias, célula de sustentação da sociedade burguesa, favorecendo o concubinato. Isso gerava problemas com relação às questões de sucessão, pois os casamentos realizados em outras religiões, e os nascimentos de filhos de não católicos, devido ao crescente número de imigrantes, que não rezavam nas leis da Santa Madre Igreja, não possuíam registro.
O romantismo, que serviu tão bem, como escola ideológica literária para a formação dos Estados Nacionais burgueses, à época das Revoluções Francesa, Alemã e Inglesa; no Brasil é introduzida ainda por novelas francesas de caráter didático e censor, com o fim da manutenção dos valores burgueses – família, propriedade e religião.
A esse respeito, analisa genialmente, Roberto Schwarz, em “Ao Vencedor as Batatas, no capítulo primeiro,”As idéias Fora do Lugar”.
Enfim, se desejamos um país que tenha um executivo desvinculado da assepsia dos intelectuais ligados à interesses particulares, seja por diletantismo “bem intencionado”, contas gordas no exterior, oligarquias latifundiárias, bancos estrangeiros, globalização, precisamos dar vez, ao nosso povo, à miscigenação, a praça pública, à Constituição da República, aos sem-terra, aos trabalhadores, aos desempregados, à saúde, à educação, às crianças que morrem mais pelo tráfico de drogas do que se estivéssemos em guerra e elegeremos um candidato brasileiro, sem medo de nos misturarmos com o povo desse país.

*Cristiana Teixeira Mendes é bacharel em Letras pela UFRJ e estudante de Direito