A guerra infinita de Vladimir Putin

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 6 de setembro de 2004 as 11:46, por: cdb

Causa perplexidade e escândalo a atitude das forças de segurança russas no episódio da escola ocupada pelo comando checheno, produzindo centenas de mortos e feridos. Mas nenhum observador se surpreendeu com a atitude do governo de Vladimir Putin, diante da sua trajetória pessoal e dos antecedentes de casos similares.

Depois de ter tolerado Boris Yeltsin, que entre um trago e outro, consolidou o sepultamento da URSS preparado por Mikhail Gorbachev, as potências ocidentais se sentiram aliviadas pela ascensão de Putin, mesmo que às vezes manifestem em público certa apreensão com as origens na KGB que teve o mandatário soviético, com certos “excessos” dele na repressão a órgãos de imprensa opositores, ou aos métodos de repressão de alguns magnatas do empresariado privado.

A economia soviética retomou seu desenvolvimento depois da moratória – que os bancos internacionais e o FMI suportam perfeitamente bem -, o abastecimento de gás russo está garantido e a “ordem” reina em Moscou. Mas Putin cobra do apoio à dado aos EUA na guerra contra o regime taleban a mão livre para cuidar dos seus próprios islâmicos, concentrados na Chechênia.

Estes, alinhados com o setor islâmico mais radical, reagem com todas as formas violentas de que são capazes, em Moscou ou nas províncias, como as invasões e os seqüestros têm demonstrado. E recebem as reações estilo bushiano por parte de Putin. Por isso, mesmo quando o líder russo declarou que o mais importante no episódio sangrento recentemente concluído era a vida das pessoas, nenhum observador crítico levou a sério a observação dele. Bastava conhecer seus métodos e o que significaria na sua linha dura de combate à resistência chechena qualquer concessão para salvar essas vidas.

As potências ocidentais, pelo rabo preso que têm com o governo russo, pouco ou nada farão de dura condenação a Putin, que por sua vez já se defende com argumentos sobre a falta de coordenação das forças de segurança, como se um governo dirigido por um ex-membro da KGB pudesse deixar de atuar com critérios estratégicos de segurança nacional em um caso como esse.

Concentrarão a condenação nos “terroristas”, os mesmos que ameaçam jornalistas franceses e tomam como reféns empregados de empresas que lucram com a reconstrução do Iraque. Os chechenos se tornam novos parias, como foi o caso, entre outros, dos curdos. Em seu nome Putin leva a cabo sua guerra infinita.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História”.