A Geopolítica da Vingança

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Publicado segunda-feira, 8 de outubro de 2001 as 16:26, por: cdb

O real significado dos atentados do dia 11 de setembro sobre a política mundial dependerá da evolução de, pelo menos, três grandes questões, a ele relacionadas.
A primeira: a inviolabilidade do território nacional, objetivo número um na escala de preocupações do Estado americano, foi quebrada. Invulnerável a ameaças de forças armadas regulares, o país mostrou-se frágil frente a essa outra modalidade de ataque. Pior: trata-se de uma fragilidade estrutural, que atinge todas as sociedades modernas, com populações concentradas em centros urbanos, altamente dependentes de instalações fixas de todo tipo, inclusive as de uso civil, transformadas em possíveis alvos.
Será longa, dificílima e cara – e de resultados incertos – a revisão de procedimentos da segurança nacional americana. Mas suas extrapolações para o mundo se anunciam muito preocupantes. No calor dos acontecimentos, o presidente George W. Bush enunciou três conceitos:
(a) o fim do direito à neutralidade, que foi historicamente respeitado em todas as guerras, como se houvesse apenas duas possibilidades em jogo: “quem não estiver conosco estará com os terroristas”;
(b) a legitimação da idéia de “ataque preventivo” para responder a ameaças, sejam elas reais, supostas ou simplesmente inventadas (recordemos que os Estados Unidos detêm o controle dos grandes meios mundiais de comunicação de massas);
(c) a admissão do uso de “todas as armas”, feita por um país que possui grandes arsenais de armas biológicas, químicas e atômicas. Em um segundo momento, aliás, o sentido da expressão foi ampliado, quando se anunciou a possibilidade de legalizar assassinatos e admitir provas obtidas por meios ilegais, inclusive a tortura, “desde que fora do território americano”. Essa última restrição – que faz par com a expressão “vidas americanas”, banalizada na mídia mas cinicamente reveladora dos limites da “globalização” – mereceria uma reflexão específica. Por enquanto, basta imaginar o significado disso em um mundo em que grande número de serviços secretos ou simples esbirros estarão sob pressão para obter informações que interessem ao Império.
Sob todos esses aspectos, a busca de maior segurança no território americano – objetivo legítimo dos Estados Unidos – se faz às custas de disseminar insegurança no mundo, em uma escala nunca antes vista. Os demais Estados não podem aceitar isso. Um ponto de equilíbrio tem de ser buscado, preservando-se os valores fundamentais do processo civilizatório.
A segunda questão não é nova: diz respeito ao abastecimento de petróleo, uma conhecida vulnerabilidade americana. Com reservas, em seu território, de 28,6 bilhões de barris e um consumo diário de 19,5 milhões de barris, os Estados Unidos têm petróleo próprio para abastecer-se durante apenas quatro anos. A evolução do cenário no Oriente Médio tem sido favorável à posição americana: a principal potência regional não subordinada, o Iraque, foi destruída e permanece há dez anos sob bloqueio, remetida a uma posição defensiva, e a maioria dos Estados árabes já reconhece (ou se dispõe a reconhecer) Israel. Nos dez últimos anos, desapareceu o espectro de uma guerra entre Estados na região. O conflito ficou reduzido a uma escala local, de baixa intensidade, envolvendo helicópteros e grupamentos de soldados, de um lado, homens-bomba e atiradores de pedra, de outro, em escaramuças suficientes para alimentar noticiários, mas incapazes de colocar em risco a oferta de petróleo. Se, no contexto dos desdobramentos dos acontecimentos atuais, emergir o espectro de desestabilização “de baixo para cima” de regimes pró-americanos instalados na região, a resposta dos Estados Unidos será igualmente imediata e violenta. Mas isso, até onde se pode ver, parece improvável.
A terceira questão relaciona-se com o ataque, em marcha, ao Afeganistão. É ingênuo imaginar que uma operação de tamanho porte obedeça apenas a impulsos emocionais e seja desencadeada sem que tenha relação