A Estrada adapta livro premiado de Cormac McCarthy

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Publicado sexta-feira, 23 de abril de 2010 as 14:35, por: cdb

Produção norte-americana dirigida pelo australiano John Hillcoat, A Estrada mirou num apocalipse futurista, mas investiu muito de sua energia na relação de amor entre um pai (Viggo Mortensen, de Um Homem Bom) e um filho (o adolescente australiano Kodi Smit McPhee). O filme estreia em circuito nacional.

O enredo baseia-se no livro homônimo, assinado pelo escritor norte-americano Cormac McCarthy (autor de Onde os Fracos não Tem Vez, filmado por Ethan e Joel Coen) e que venceu o prêmio Pulitzer.

A história combina uma dramaturgia máxima a um argumento mínimo. Num tempo futuro indeterminado, uma catástrofe ambiental de proporção planetária varreu a natureza. Terremotos, incêndios e temporais se sucedem, ao mesmo tempo em que a atividade econômica se interrompe, bem como toda vida social.

Ilhada nestes tempos obscuros, uma família, formada por uma mulher (Charlize Theron, de Terra Fria), um pai (Viggo Mortensen) e seu filho (Kodi Smit McPhee), sobrevivem como podem. Até que ela perde a esperança. Mais tarde, somente o pai e o filho são vistos juntos, perambulando por estradas devastadas e perigosas, infestadas de gangues canibais.

O destino da mãe só é revelado mais adiante. Com ecos de outros filmes mais ou menos recentes abordando diversos tipos de apocalipse – como Extermínio, de Danny Boyle, Eu Sou a Lenda, de Francis Lawrence, e Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles – o filme de Hillcoat tem energia e personalidade, embora claramente não seja fácil de assistir.

A tensão que A Estrada produz no espectador é genuína. É o tipo de filme que se assiste com os sentidos acesos e o coração apertado. E sustenta com força sua única premissa – o que será deste pai e deste filho, procurando manter um mínimo de amor e de ética num mundo em que a sobrevivência se tornou o único desafio?

Uma outra atração está nas pontas de alguns atores conhecidos – caso do veterano Robert Duvall (Os Donos da Noite) e do australiano Guy Pearce (Amnésia), quase irreconhecíveis debaixo de pesada maquiagem.

O próprio Cormac McCarthy, que costuma torcer o nariz para a maioria das adaptações cinematográficas de seus livros, deu sua benção a esta ótima versão, que nasceu de uma aposta arriscada. O diretor australiano Hillcoat (A Proposta) e o roteirista Joe Penhaal, apesar de ser um dramaturgo premiado (pelo texto Laranja Azul, montado no Brasil), não eram considerados primeira linha em Hollywood.

O status da história também era, a princípio, bem mais low profile. Quando o roteirista Penhall começou a adaptar o livro para o cinema, ele sequer havia sido publicado. Um ano depois, com a produção pelo caminho, já havia se tornado popular o bastante para ser mencionado como obra de cabeceira da notória apresentadora Oprah Winfrey.

Uma condenação de McCarthy ao filme sepultaria, provavelmente, o futuro cinematográfico de diretor e roteirista. Penhall descreve, num saboroso artigo publicado em janeiro pelo jornal inglês The Guardian, a expectativa que cercou a exibição prévia do filme para o escritor num estúdio, em Albuquerque.

Uma expectativa que só se desfez quando o escritor decretou: “É muito bom, mesmo.” Segundo Penhall no mesmo artigo, McCarthy aprovou inclusive a narração em off, que havia sido tema de disputa entre Hillcoat, Viggo Mortensen – contra a narração – e o roteirista e Nick Cave, autor da trilha musical, os dois a favor.

Penhall venceu e, a bem da verdade, a narração é uma das raras do cinema moderno que não é redundante nem opressiva. Cai bem no contexto desesperançado da história, delineando a resistente ternura que permeia todo o relato.