A China e a cor dos gatos

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Publicado sábado, 9 de novembro de 2002 as 12:29, por: cdb

“Não importa a cor do gato, mas se é ou não capaz de caçar ratos” (Deng Xiaoping)

“Nas telas dos radares da economia global, o objeto que chama mais atenção, por sua trajetória brilhante, é a economia chinesa”. Assim começa o artigo de Chalmers Johnson intitulado “Nacionalismo e Mercado: A China como Superpotência”. Johnson é presidente do importante Japan Policy Research Institute e autor bastante conhecido com mais de uma dúzia de livros sobre os países asiáticos.

“Nacionalismo e Mercado” sustenta a seguinte tese: os Estados Unidos e o Ocidente estão diante de um novo Japão. Um tigre de dimensão continental e com dentes atômicos. É perigoso, argumenta Johnson, continuar fazendo vista grossa diante das agressivas práticas mercantilistas adotadas pelos chineses para dançar a música dos mercados globalizados. Mas a experiência também tem demonstrado que não é prudente tentar aplacar o ímpeto do mamute com garras de felino com a imposição de sanções ou brandindo ameaças. O bicho é conhecido por sua capacidade de resposta rápida e, muitas vezes, mortal.

Os chineses vêm executando políticas industriais e comerciais de corte nacionalista, protecionista e comandadas pela ação autoritária do Estado. Escreve Chalmers Johnson: “o maior déficit comercial americano é com a China, graças em parte à política nacionalista de comércio exterior que combina o mercantilismo japonês com o autoritarismo. A China continua a bloquear o acesso a seu mercado, a utilizar mão-de-obra barata, inclusive crianças e prisioneiros, o que enfraquece o poder de barganha dos trabalhadores.”

Não bastasse isso, os chineses usam e abusam das políticas industriais, de normas discriminatórias destinadas a favorecer as empresas nacionais em detrimento das estrangeiras. Apóiam abertamente a concentração e fusão, usando as grandes estatais como núcleos destinados a coordenar este processo de constituição de conglomerados, que, no futuro próximo, devem emular os keyretsu japoneses ou os chaebol da Coréia do Sul.

Uma punhalada nas costas dos que rezam pela cartilha da competitividade conquistada através da suave e benfazeja disciplina dos mercados. Os chineses parecem não acreditar na eficiência estática e muito menos dinâmica da mão-invisível. Para eles as verdadeiras leis do mercado se exprimem através das normas muitas vezes arbitrárias do fascinante jogo da competitividade global. Isso, diga-se, é motivo de escândalo para os intelectuais e políticos progressistas americanos.

Os resultados obtidos até agora confirmam as suspeitas dos herdeiros de Mao sobre o capitalismo realmente existente: a economia vem apresentando, ininterruptamente, desde o início da década dos oitenta, taxas de crescimento elevadíssimas (entre 7 a 9% ao ano). A China vem sustentando superávits crescentes com o Japão, os Estados Unidos (mais de 30 bilhões de dólares em 2001) e a Europa, graças à combinação “virtuosa” de três fatores: rápida incorporação do progresso tecnológico nos setores mais dinâmicos, câmbio extremamente subvalorizado e gastos em infra-estrutura .

Os métodos autoritários que levaram a estes resultados formidáveis não são evidentemente dignos de recomendação. Mas é impossível resistir à constatação de que a China enfrenta os desafios da globalização com concepções e objetivos que desmentem a propalada “desimportância” do Estado-Nação , das políticas nacionais e intencionais de industrialização e desenvolvimento. Por aqui, neste Brasil varonil, a paixão nacional é discutir a cor dos gatos. Os “donos do pedaço” têm absoluta certeza, do alto de sua mão com cinco dedos, de que todos são pardos.