A Amazônia da grande mídia

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Publicado sexta-feira, 24 de junho de 2011 as 20:51, por: cdb

O programa Observatório da Imprensa da última terça-feira(14/06) transmitido pela TV Brasil e conduzido pelo jornalista Alberto Dinesfez uma discussão sobre o estranhamento da grande mídia sobre a Amazônia.Participaram como convidados o cientista político Sérgio Abranches, oantropólogo Alfredo Wagner Almeida e a repórter de meio ambiente Afra Balazina,do Estado de S. Paulo. A tese do programa era a de mostrar as limitações dagrande mídia (leia-se os veículos do sudeste) em cobrir o país em suatotalidade, sobretudo a Amazônia.

Os convidados deram uma grande contribuição à discussãomostrando que os problemas da região são muito mais complexos do que a mídiapressupõe. Wagner, coordenador do importantíssimo Projeto Nova Cartografia Socialda Amazônia fez um paralelo sobre o aumento da violência no campo e a revisãono Congresso Nacional do Código Florestal. Abranches falou do enfraquecimentodo interesse da mídia pelo tema e a jornalista do Estadão mostrou a dificuldadede se cobrir à distância assuntos delicados e urgentes.

No entanto, algumas abordagens sobre a Amazônia não foramconsideradas como se deveria. Apesar do esforço do antropólogo em mostrar essesdebates, Alberto Dines sempre voltava a questão da necessidade de mais profissionaisdos maiores jornais distribuídos pelo país e em vários momentos criticou acobertura dos veículos locais. Ainda que grande parte dos veículos pequenosmereça críticas e que o jornalista é um grande pensador brasileiro, seuenviesamento no programa deixou muitas abordagens interessantes sem seremdiscutidas.

Uma questão muito importante se refere ao fato de que aimprensa brasileira não conhece a Amazônia. Trata a região que abriga noveestados e mais de 60% do território brasileiro como se fosse uma coisa só,desconsiderando suas diferenças geográficas, econômicas, de biodiversidade,cultural, potencialidades e problemas. Essa limitação é ancorada num outrofator muito preponderante: o mito sobre a Amazônia. É do senso comum conceber aAmazônia como sendo uma grande floresta em que mesmo em capitais como Manaus,Belém ou Cuiabá é possível ver índios andando semi-nus nas ruas e não raro sedeparar com uma onça pintada na esquina ou um jacaré saindo da beira do rio.

Mais do que isso, cria-se um imaginário quase onírico ousaído das páginas de José de Alencar sobre os povos que habitam a região. Jáfaz alguns anos que parei de contar as vezes que algum amigo, familiar oujornalista fez considerações etnocêntricas sobre comunidades indígenas quando constatam,por exemplo, que em muitas (talvez a maioria das aldeias em Mato Grosso)existem escolas, telefone, televisão e seus moradores andem vestidos. “Nossa,eles deixaram de serem índios”, é o que mais escuto. Não necessariamente pormaldade e sim por ignorância, mesmo. No sentido literal do termo.

É claro que a Amazônia tem que sair na mídia por conta dodesmatamento que voltou a aumentar e a violência no campo que explodiu namídia, embora aconteça sistematicamente desde antes da morte de Chico Mendes eIrmã Dorothy, em várias regiões. Mas também tem uma riqueza social, cultural,econômica e ambiental que tem que ser valorizada e discutida na mídia comintensidade parecida.

É muito fácil os jornalistas do sudeste criticarem as mídiasdo norte por não repercutirem tanto os descasos de sua região, embora soframmuito mais de carência de pessoal e infraestrutura. E sim, e é claro que quasea totalidade das mídias locais pertence ou sofre severas influências depolíticos locais que impedem a divulgação de determinados temas. Mas essacensura (às vezes velada, às vezes às claras) não é privilégio dos pequenosgrupos. As grandes corporações de comunicação também evitam assuntos ao máximoou deturpam de tal maneira temas como Terras Indígenas, comunidades tradicionaise grandes obras de infra-estrutura que reforçam estereótipos e preconceitos detal maneira que dificulta ainda mais que as vozes dos que precisam gritar sejamouvidas.

A grande mídia precisa descer do pedestal e de suas torresde marfins e ir mais a campo, contar com jornalistas locais e ouvir fontes maisdiversas. Existe um mundo de organizações não-governamentais, associações deassentados, comunidades tradicionais e indígenas que sistematicamente divulgamsuas lutas por sites, blogs e emails, que ajudam a diminuir a distância entreos fatos da Amazônia e os jornalistas do sudeste.

A mídia quando quer faz boa cobertura sobre qualquerassunto. E talvez seja esse o verbo que falte às redações!