95 gravuras de Picasso no Brasil

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Publicado segunda-feira, 14 de outubro de 2002 as 23:18, por: cdb

Picasso está para o século 20 assim como Leonardo da Vinci para o século 15. Os dois são perfeitos tradutores de sua época. E, é claro, foram muito além do simples registro: inventaram, desafiaram, promoveram, revolucionaram. Picasso conseguiu ser um super-astro da arte, mesmo quando tudo o que desejava era trabalhar tranqüilo em seu ateliê em Paris. Conseguiu continuar trabalhando mesmo quando a capital francesa estava ocupada por tropas alemãs. Afinal, ele era Picasso, um nome que dispensava apresentações.

Pois é exatamente este nome, considerado por muita gente como o maior da arte do século 20, que estará ao alcance do público brasiliense. A partir de 19 de outubro, o Conjunto Cultural da Caixa recebe Picasso Gravador, uma exposição com 95 gravuras do mestre. A mostra poderá ser vista até o dia primeiro de dezembro, na Galeria 1º Andar. A exposição é uma realização conjunta entre a Caixa Econômica Federal, Embaixada da Espanha, Museu Rainha Sofica e Ministério da Educação, Cultura e Desporte da Espanha.

Picasso é, sem dúvida, o primeiro nome que vem à cabeça quando se pensa na arte do século 20. Foi ele quem sacudiu o circuito artístico europeu apresentando, pela primeira vez, uma visão cubista da realidade, com As Meninas de Avignon. Corria o ano de 1917. Depois daquilo, a arte nunca mais seria a mesma. Estava aberto o caminho para as diversas interpretações da realidade que se seguiram.

Nascido em Málaga, no sul da Espanha, em outubro de 1881, Picasso desde cedo aprendeu a apreciar a arte. Seu pai era pintor e escultor e aos 10 anos de idade o menino já estava fazendo suas primeiras pinturas. Aos 15, ingressava com brilhantismo na Escola de Belas Artes de Barcelona, apresentando a tela Ciência e Caridade. Aos 18, iniciava-se no terreno da gravura. Picasso trabalharia como gravador até 1972, um ano antes de sua morte, com 91 anos de idade. Durante este tempo, o artista concebeu 2.200 gravuras, com as técnicas da calcogravura, litogravura e gravura em relevo.

Picasso Gravador inclui 95 das 130 gravuras que integram o acervo permanente do Museu Rainha Sofia. As gravuras fazem parte de momentos diferentes da carreira do artista. Dentre elas, 36 integram a famosa série Suite Vollard, concebida por Picasso sob encomenda do editor e marchand Abroise Vollard. Compõem a Suite Vollard gravuras que foram trocadas por pinturas da fase azul e rosa de Picasso, pertencentes ao marchand. Produzidas entre 1930 e 37, as gravuras são uma das muitas obras primas que marcam a carreira do artista.

Na época em que se dedicou à criação da Suite, Picasso já havia transcendido os rigores do cubismo e conquistado seu posto na galeria dos eternos. Com isso a série ganhou. Primeiro, porque o artista se permitiu uma enorme liberdade para trabalhar; depois, porque demonstrou impressionante domínio na reprodução do corpo humano. O estilo de Picasso, nesse período, chega a beirar o clássico – antes de produzir a Suite Vollard, ele havia ilustrado uma edição de As Metamorfoses, um clássico da poesia de tema mitológico de Ovídio, e como tudo em Picasso mistura vida e obra é possível que isso o tenha influenciado. São gravuras que têm um tom poético. A explicação é simples: o trabalho foi encomendado por Vollard, mas criado sob a inspiração de Marie-Thérèse, um amor clandestino de Picasso.

Também estão em Picasso Gravador 59 gravuras individuais que são um presente para os olhos. Mesmo não fazendo parte de séries específicas, estão relacionadas a gêneses de obras-primas do mestre, como Guernica, o enorme mural no qual conseguiu um esmagador impacto como retrato-denúncia dos horrores da guerra. Na coleção está, por exemplo, Minotauro cego guiado por uma menina (criado em setembro de 1934), com figuras que formam parte do conjunto preparatório do mural definitivo de Guernica. As mulheres de Picasso também estão representadas em diversas dessas obras, enfatizando a natureza autobiográfica da obra gráfica picassiana: Dora Maar, uma ponta-sec