A morte do Cauby mexeu comigo

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Publicado sábado, 16 de julho de 2016 as 15:00, por: cdb

Por Maria Lúcia Dahl, do Rio de Janeiro:

Colunista vive nostalgia de uma época com a morte do Cauby
Colunista vive nostalgia de uma época com a morte do Cauby

Lá em casa, quando eu era pequena, existiam vários grupos de pessoas que se dividiam pelo tipo de música que gostavam de ouvir, ou que eram mesmo, viciadas.

Eu passeava pela casa, onde ouvia mamãe tocando Chopin no piano de cauda da sala, ou ouvindo Edith Piaf na vitrola . Passava pela outra sala e via meu pai tocando Noel Rosa no violão que eu também aprendi com o professor Patrício Teixeira que me ensinava músicas antigas como as de Mário Reis, por exemplo.

No quarto das empregadas eram os baiões do Luiz Gonzaga e mais outros que me divertiam.

Depois , também tinha os shows da Rádio Nacional produzidos pelo Rhum Creosotado, remédio da família da minha mãe, cujo versinho escrito no bonde, foi composto por meu avô, Gastão Penalva:

“Veja, ilustre passageiro

O belo tipo faceiro, que o senhor tem a seu lado

E no entretanto, acredite

Quase morreu de bronquite

Salvou-o o Rhum Creosotado”

Na Rádio Nacional assistia Alvarenga e Ranchinho cantando e tocando viola e outros vários cantores da época como Black Out, Doris Monteiro, Emilinha Borba, e outros que também iam lá em casa fazer show nos nossos aniversários: meu e da minha irmã. Se algum deles falasse comigo eu morria de vergonha e tapava o rosto com as mãos, o que me fazia levar uma bronca de vovó, enquanto as empregadas serviam os cantores, boquiabertas.

E depois, bem mais tarde, quando elas elegeram o Cauby como o must da época, eu gostava muito da sua voz mas não me identificava tanto com ele como os cantores mais doidos e engraçados que cantavam baião, se bem que sempre achei linda a sua voz, assim como achava também a do Frank Sinatra de mamãe.Mas a minha primeira escolha pessoal, que me deixou enlouquecida mesmo, foi a do Elvis que cheguei até a ver em Nova York, dando adeus pela janela do teatro depois do show onde se apresentava, que me fez e gritar Junto com uma multidão na rua.

Da música brasileira, quando adolescente, gostava de Roberto e Erasmo, na Jovem Guarda, mas quando apareceu a Bossa Nova enlouqueci dessa vez com João Gilberto e Tom Jobim. Essas eram as minhas próprias escolhas antes dos Beatles, que assisti no Olympia, em Paris, E os Rolling Stones.

Vivia mergulhada em música até, por exemplo, o Raul Seixas, a Blitz, e muitos outros e hoje não consigo me envolver com nenhum tipo de banda atual.

Me sinto um pouco por fora das últimas viradas que a arte deu, por causa disso vou levando meu passado no bolso ficando , por isso, triste com a morte do Cauby, que ainda por cima iria fazer um show nas proximas semanas. Pena!

Que coisa mais chata uma época sem ídolos. Será que já existiu?

Pra mim eles acabaram na política e na arte, em geral, a não ser os que já estão por aí há uns vinte anos como Adriana Calcanhotto Arnaldo Antunes,Cazuza, Seu Jorge, (bem mais recente) que são os mais emocionantes fora os do tempo do quarto de empregadas lá de casa e da Rádio Nacional , onde se ouvia o Cauby, que tomara que esteja encontrando com todos os que se foram e formando um inacreditável fundo musical.

Maria Lúcia Dahl , atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa – 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come – Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais – Dancing Days – Anos Dourados – Gabriela e recentemente em – Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas – O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme – Vendo ou Alugo – vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil.

Direto da Redação, editado pelo jornalista Rui Martins.