60 presos por suposta tentativa de golpe na Costa do Marfim

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Publicado sexta-feira, 29 de agosto de 2003 as 14:33, por: cdb

Mais de sessenta militares e policiais já foram presos desde o fim de semana passado por ligação com uma tentativa de golpe para depor o governo da Costa do Marfim e assassinar o presidente do país, Laurent Gbagbo, segundo emissoras locais de Dacar.

As autoridades marfinianas prenderam nesta quinta-feira à noite no aeroporto de Abidjan o general Abdoulaye Coulibaly, terceiro na hierarquia do regime militar que governou o país entre 1999 e 2000, logo após desembarcar do avião que o levava de volta a Paris.

Coulibaly está sendo interrogado pelas forças de segurança da Presidência, confirmaram da capital econômica e da sede do governo marfinense fontes oficiais que pediram anonimato. O complô para eliminar Gbagbo foi planejado, aparentemente, na capital da França, onde a polícia prendeu no sábado passado mercenários marfinenses e franceses quando se dispunham a viajar para a Costa do Marfim.

Entre os detidos, que permanecem nos escritórios da Direção da Vigilância do Território (DST, contra-espionagem), e qualificados por fontes judiciais francesas como “profissionais remunerados”, está o sargento Ibrahim Coulibaly, conhecido também como “IB” e parente do general Coulibaly.

IB, considerado o principal personagem da conspiração desbaratada em Paris, também está envolvido no golpe de Estado do general Robert Guei que acabou com o regime do presidente constitucional Henri Konan Bedie, no Natal de 1999, e que afundou o país em uma espiral de motins e rebeliões.

Aquele governo militar caiu em outubro de 2000 quando Guei tentou manter-se no poder por meio de uma fraude eleitoral nos pleitos presidenciais com os quais pretendia devolver a administração do país para autoridades civis.

Abdoulaye Coulibaly foi acusado nessa ocasião de tentar derrubar Guei e foi preso com outros trinta oficiais de alta categoria. Posteriormente, um tribunal militar o declarou inocente, enquanto seu colega, o também general Lansana Palenfo, foi condenado a um ano de prisão.

A fraude eleitoral de Guei causou violentas manifestações populares nas quais morreram dezenas de pessoas e que só terminaram quando Gbagbo, outro dos candidatos, foi declarado vencedor das eleições, apesar de não ter obtido maioria absoluta e ser necessário um segundo turno.

A chegada de Gbagbo ao poder sem um mandato total gerou novos conflitos, até que em setembro de 2002 um motim de cerca de 700 soldados e oficiais de baixa graduação por uma questão de falta de pagamentos começou uma guerra civil, quando estes foram apoiados pela maioria muçulmana do norte do país.

O motim foi reprimido de forma sangrenta em Abidjan, onde morreram mais de 300 pessoas, entre elas o general Guei e vinte de seus familiares e próximos, assassinados pelos chamados “Esquadrões da morte” de Gbagbo, que atiraram os corpos em diferentes pontos da cidade.

As autoridades e os três movimentos rebeldes criados em 2002 assinaram em 24 de janeiro passado um acordo de paz em Marcoussis, mas suas tropas continuaram combatendo esporadicamente até maio, quando assinaram em Abidjan um pacto para o fim definitivo de hostilidades.

Apesar do cessar-fogo ter permitido o envio de uma força internacional de paz para todo o país e ter facilitado que em julho assumisse um governo de unidade nacional, os antigos combatentes admitiram que o processo de paz está parado. Segundo observadores, a fracassada tentativa de assassinato de Gbagbo complicará ainda mais as coisas e inclusive poderia iniciar um conflito ainda maior.

Os antigos movimentos rebeldes, integrados agora por um grupo político chamado Forças Novas, denunciaram a suposta tentativa como uma farsa de Gbagbo com a cumplicidade das autoridades francesas.

Gbagbo e o partido Frente Patriótica Ivoriana (FPI) suspeitam, por outro lado, da cumplicidade dos ex-rebeldes, do principal grupo opositor, o Agrupamento dos Republicanos (RDR), e também do primeiro-ministro da tran