Voluntariado contra a desigualdade

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Publicado quinta-feira, 18 de outubro de 2001 as 16:46, por: cdb

O novo século começou sem que a humanidade tivesse conseguido minimizar a vergonhosa desigualdade entre as nações. A integração econômica dos mercados nacionais trouxe benefícios evidentes, porém aumentou as disparidades na riqueza, no poder social e na distribuição de oportunidades.

Hoje, 84% das transações internacionais são feitas entre países onde vivem somente 28% da população mundial; 76% dos fluxos de investimento direto, estimados em US$ 86,5 bilhões em 1999, permanecem nos países desenvolvidos, e 156 países em desenvolvimento gastam, em média, quase 40% de sua produção no pagamento dos juros da dívida externa.

No Brasil, a pobreza atinge cerca de 50 milhões de brasileiros, segundo dados do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas.

Número impressionante e inadmissível. É uma triste realidade, que desestrutura o país e, a médio prazo, compromete a própria escala do mercado interno.

Em conseqüência deste hiato entre uma prosperidade sem precedentes e uma partilha extremamente perversa e iníqua dos ganhos potenciais da globalização, o mundo encontra-se regido pela incerteza e pelo medo.

Ao ingressar no novo século, a miséria, a indigência e a pobreza nos levam à perda de referências. Mas não apenas isso. Abrem caminho à excessiva mercantilização, ao engessamento de afetos e à substituição de valores, como a solidariedade e a fraternidade, substituídos pela lógica fria e implacável dos sistemas abstratos do dinheiro.

Nunca, como hoje, o mundo esteve tão repleto de possibilidades e, ao mesmo tempo, tão fragilizado, sem rumo e próximo da perda da capacidade de indignação e de reação.

Neste contexto, o Ano Internacional do Voluntário, marco da ONU para 2001, representa muito mais do que um convite à reflexão sobre esse descompasso, essas disparidades e os riscos de banalização do desrespeito aos valores republicanos da igualdade, liberdade e fraternidade. É também um estímulo à ação nesta época de fragmentação e de insegurança, de perplexidade e de indignação, de recusa aos dualismos sociais e de indecisão quanto ao futuro.

O principal objetivo do Ano Internacional do Voluntário é divulgar e ampliar práticas que introduzam novos modos de ser, agir, sentir, pensar, imaginar, reagir e sonhar. Nesse sentido, incluem-se a ajuda aos marginalizados, o resgate do respeito ao próximo como alguém igual a nós e a abertura de caminhos para que essa igualdade transcenda os limites do formalismo jurídico e ganhe uma dimensão material, substantiva e real.

O voluntariado quer disseminar e socializar valores e
comportamentos que permitam restabelecer a cooperação e a solidariedade. Ele se baseia na premissa de que a pobreza não é só carência de renda, mas também falta de acesso a condições mínimas de saúde, educação, moradia, transporte, cultura e lazer.

Transformar sujeitos em cidadãos. Esta é a essência da proposta do voluntariado. Isto significa converter homens e mulheres em agentes capazes de empregar recursos cognitivos, morais, intelectuais e financeiros em trabalho desinteressado com vistas ao fortalecimento do bem comum.

Multiplicar a criatividade individual e empresarial para fortalecimento do tecido social, mediante a incorporação no mercado de trabalho e de consumo daqueles que não puderam ingressar ou participar.

O empresariado tem a missão de produzir riquezas. Cabe ao Estado a oferta de políticas públicas. O voluntariado coloca, então, para si, a tarefa de universalizar direitos civis, sociais e econômicos, para dar poder de voz, capacidade de mobilização e representatividade política aos excluídos.

Graças às suas parcerias com “empresas cidadãs”, ONGs, diferentes entidades associativas e milhões de voluntários que criam instituições e atividades a partir de um sonho ou de um engajamento comunitário, o voluntariado é um fator de catalização de recursos, de energias, de habilidades e de competências. Assim, constroem-se formas mais justas e legítimas de sociabi