Viver e morrer no Iraque

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Publicado segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007 as 12:01, por: cdb

Nada sintetiza melhor o mundo de hoje do que viver no Iraque. Dezenas de mortos por dia, em qualquer lugar, a qualquer hora, de qualquer maneira. Corpos de mulheres, de crianças, de idosos, povoam os noticiários, sem provocar qualquer sentimento de horror e de indignação. No entanto, quem não conseguir se identificar com o inferno a que estão reduzidos os iraquianos, não tem o direito de se chamar ser humano.

Viver – e morrer – em um país invadido, massacrado, humilhado, em estado de decomposição. Viver em um país em que a primeira coisa destruída depois da invasão foram os museus, a memória da mais antiga civilização do mundo. E a primeira coisa protegida foram os poços de petróleo, combustível das guerras infinitas do império insaciável de petróleo e de destruição. Porque é uma invasão para acabar com um país e nada melhor do que acabar com sua memória, com sua história, com sua identidade, com seu passado, para que não cogite pensar em seu futuro.

Como viver um cotidiano feito de explosões, de bombardeios, de bombas, de disparos, de tropas ocupando ruas, praças, mesquitas, uma vida cheia de morte? Que mundo é este, que convive com as dezenas de mortes cotidianas, como se fosse uma catástrofe natural? Como se não tivesse sido produzida por uma guerra, por uma invasão, por mais uma agressão de um império?

O Che falou da solidão do Vientã e pediu energicamente pela unidade em apoio ao Vietnã, que lutava contra invasão do mesmo poder imperial. Houve unidade dentro do Vietnã e no apoio, o povo dos EUA se deu conta das monstruosidades que estavam cometendo.

Aquela tremenda solidão não é nada comparada com a solidão do povo iraquiano e do povo palestino. Quem, no mundo de hoje, acorrerá para impedir o extermínio desses povos? Quem lhes garantizará o direito a viver, o direito a existir? Quem perderá o medo ao império e levantará a voz, o punho, para dizer: BASTA!

Enquanto se morre diariamente no Iraque, na Palestina, não temos direito à paz, à tranqüilidade, ao presente e ao futuro. Não temos o direito a nos considerarmos humanos. Ou somos todos iraquianos e palestinos ou nos teremos tornado irremediavelmente desumanos.

Emir Sader é cientista político, jornalista e professor da UERJ