Viagens de ministros causam desgaste no Governo

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Publicado sábado, 25 de outubro de 2003 as 14:57, por: cdb

Com pouco menos de dez meses de administração, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva Lula foi incapaz de evitar a repetição de um dos erros que mais criticou durante os 20 anos na oposição: o mau uso do dinheiro público. As denúncias a respeito de viagens de ministros ao exterior utilizando dinheiro federal para fins particulares têm causado mal-estar e desgaste no governo.

“Não há duvidas que há um desgaste grande com estes episódios, especialmente porque a expectativa do povo em relação ao novo governo era de um governo da ética. E está sendo pego justamente neste ponto”, disse Carlos Lopes, analista político da consultoria SantaFé Idéias.

Esses pequenos escândalos se fizeram sentir na pesquisa sobre o governo divulgada esta semana, que mostrou os piores índices de popularidade do presidente Lula. A avaliação positiva do governo caiu de 48,3% em agosto para 41,6% em outubro, enquanto a negativa subiu de 10% para 12,3%. Uma das explicações para os resultados foi a repercussão do “episódio Benedita”.

A ministra da Assistência e Promoção Social, Benedita da Silva, foi até a Argentina para participar de um culto religioso usando o dinheiro da pasta para pagar diárias de hotel e passagens aéreas. Ao mesmo tempo agendou alguns compromissos oficiais. Depois de a imprensa ter publicado largamente a história, a ministra praticamente assinou sua ficha de confissão ao depositar o dinheiro em juízo, apesar de continuar alegando que a viagem foi a trabalho.

Outro caso é o do ministro do Esporte, Agnelo Queiroz, que viajou para o Pan-americano de Santo Domingo, em agosto, com verba oficial, mas teve suas despesas pagas pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Nesta semana, Agnelo decidiu devolver a quantia recebida do governo, cerca de US$ 11 mil. A decisão de Agnelo veio depois das críticas da secretária para o Esporte de Alto Rendimento, a ex-jogadora de basquete “Magic” Paula, que pediu demissão do cargo esta semana.

Os episódios teriam feito com que o Palácio do Planalto pedisse aos ministérios uma melhor “triagem” das viagens internacionais e contenção nos gastos, o que, oficialmente, é negado pela Casa Civil.

Prato cheio para a oposição

A história das viagens se transformou num prato cheio para os ataques da oposição. Há menos de um mês, o PFL começou a treinar funcionários para investigar os gastos governamentais no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siaf) e já conseguiu fazer um levantamento sobre as viagens dos ministros de Lula, mostrando gastos elevados.

Os dados do Siaf mostram que as viagens de Lula já consumiram este ano o dobro do que foi gasto no mesmo período do ano passado pelo governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Enquanto o tucano gastou cerca de um milhão de reais, o petista já gastou mais de dois.

Os ministros, que reclamam da falta de recursos para a aplicação em programas considerados prioritários pelo governo, não estão controlando seus gastos em relação às viagens.

Um exemplo: o ministro da Saúde, Humberto Costa – que vem defendendo a reposição dos recursos do orçamento destinado a sua pasta em 2004 – gastou cerca de R$ 45 mil do erário em viagens a Suíça, Estados Unidos, Paraguai, Finlândia, Moçambique e Argentina. O único ministro que nunca saiu do país com dinheiro público até o momento é Ricardo Berzoini, da Previdência Social, segundo afirmou recentemente o próprio ministro.

No governo passado, um dos ministros que conseguiu escapar ileso das críticas por gastos em viagens foi Pelé, do Esporte. Embora fosse um dos que mais viajasse, Pelé tinha seus custos cobertos por patrocinadores pessoais.