Usineiro paulista apóia PT e quer presença de estado regulador

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Publicado segunda-feira, 27 de agosto de 2001 as 14:24, por: cdb

Na primeira experiência que os Biagi tiveram com o movimento sindical, chamaram a polícia. Era maio de 1980 e o Sindicato dos Metalúrgicos de Sertãozinho (SP) montou um piquete na porta da fábrica de bens de capital Zanini, que pertencia à família e produzia equipamentos para destilarias de álcool. A Polícia Militar dispersou os trabalhadores a cassetete e o comando grevista foi despedido. Duas décadas depois, Maurílio Biagi Filho, principal executivo da poderosa família que é a dona da terceira maior usina de açúcar e álcool do Brasil, afirma que se sente mais à vontade conversando com o presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, inspirador dos movimentos grevistas entre 1978 e 1980 no país inteiro, do que com o governo federal.

“As esquerdas sempre defenderam o agronegócio. Elas têm muito menos preconceito com o usineiro do que a direita”, diz o empresário, que estima produzir 8,5 milhões de sacas de açúcar e 250 milhões de litros de álcool na Companhia Energética Santa Elisa este ano, com um faturamento previsto de R$ 320 milhões. Biagi já recebeu Lula em sua usina, e também compareceu no ano passado a um seminário promovido pelo PT no Instituto da Cidadania, uma Ong mantida para estruturar linhas de ação em 2002 para a quarta candidatura presidencial do dirigente petista. “Quando somos chamados pelos prefeitos do PT, eles nos oferecem parceria, querem ouvir nossas idéias. O governo federal parece não buscar parcerias”, diz.

O próprio empresário reconhece que a proximidade com o PT se assenta em uma confluência de interesses do setor sucro-alcooleiro, por um lado, e de concepções gerais de Estado, pelo lado petista. Simultaneamente produtores de uma commodity agrícola, de energia elétrica gerada pelo bagaço de cana e de um combustível para automóveis, o setor depende da interação com o governo federal para garantir a rentabilidade de seus negócios e as esquerdas, de maneira geral, são favoráveis a uma maior presença do Estado como regulador da economia.

“O nosso mercado tem que ter uma regulação. Tem que ter um delegado na parada”, diz Biagi, que desconversa quando indagado se não está aí a defesa da volta do controle de preços e dos subsídios ao produtor. “A regulação não precisa ser necessariamente deste jeito, mas não quero avançar neste assunto”, diz. No relacionamento com o setor, o governo Fernando Henrique se notabilizou por começar a liberar as cotações do açúcar e do álcool. A maioria dos subsídios para a produção do combustível acabaram há muito mais tempo, na década de 80.

No momento em que houve uma crise no mercado internacional do açúcar, em 1999, o setor começou a bater pesado na administração do presidente Fernando Henrique Cardoso. “A desregulamentação do setor aconteceu de maneira atabalhoada em um momento em que o setor estava despreparado. O governo sabia disto. O resultado se mostrou desastroso”, afirmou Biagi em um panfleto que mandou divulgar em dezembro daquele ano. Hoje, o momento é diferente e o setor deve faturar R$ 16 bilhões, o dobro do obtido em 1999, graças principalmente à boa cotação obtida com o açúcar no mercado internacional, mas o episódio deixou seqüelas.

Nas eleições municipais do ano passado, o número de prefeituras controladas pelo PSDB nos 89 municípios das regiões de Ribeirão Preto, Barretos, Franca e Araraquara, que compõem o Nordeste paulista, caiu de 27 para 21, o PFL passou de 10 para 8 e o PPB, de 4 para 2. Já o PT saltou de 5 para 14, em parte graças ao apoio de usineiros aos candidatos do partido, ainda que a legenda continue com alguma rejeição, mesmo de Biagi. “Existem dois PTs, o xiita e o de Lula e dos prefeitos. Eu tenho certeza que o segundo está de saco cheio do primeiro”, acredita o usineiro, que está longe de ser um esquerdista. Fala por exemplo com saudade do regime militar. “Na época dos militares, existia uma política industrial. Os militares entraram porque era o desejo da população e depois saíram em paz, em uma transição bonita”, di