Uma outra esquerda é possível?

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Publicado quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005 as 11:48, por: cdb

Há uma grande diferença entre duas posturas de esquerda que estiveram representadas no FSM. De um lado, temos a esquerda tida como “radical”, que denuncia todos os governos, denuncia o próprio Fórum e propõe a insurreição. Não estou forçando a barra, é exatamente assim. Em um dos comícios do PSTU que acompanhei, um orador exaltado (eles são sempre exaltados) denunciou o presidente Lula, dizendo que ele havia traído o povo brasileiro. Depois, denunciou o presidente da Argentina, Néstor Kirhner, também por traição. Por fim, disse que Tabaré Vásquez, recém-eleito presidente do Uruguai e que tomará posse no próximo 1º de março, “ainda não traiu, mas trairá certamente o povo uruguaio” (!)

É claro, o orador e os militantes que o aplaudiam imaginam que possuem a “verdade histórica”. Podem, então, antecipar o futuro em nome da “ciência do proletariado” (sic). Pequenos grupos como o PSTU não participam do Fórum, eles intervêm no Fórum. Metem a lâmina da agitação revolucionária no bolo que os movimentos sociais e as ONGs construíram na tentativa de levar uma fatia para casa. Fazem isso denunciando o próprio FSM como um espaço “burguês” e conclamando as pessoas à derrubada do capitalismo em passeatas.

Eles representam na política o que o autismo é na psicologia: vivem em um mundo à parte, onde a esperança é a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção, onde a democracia é um engodo e a ditadura do proletariado a salvação, e onde os indivíduos concretos, com seus desejos, opiniões, afetos e aspirações por felicidade, são uma ameaça aos coletivos avessos à reflexão que vão construindo em meio ao gritedo.

Alguns desses grupos promoveram pichações em Porto Alegre durante o FSM. Várias delas para saudar o “maoísmo”. O que não deixa de ser fantástico. Seria interessante, por exemplo, que os responsáveis pela propaganda do maoísmo em Porto Alegue pudesse mostrar para os milhares de jovens do FSM o que foi a “Revolução Cultural” do presidente Mao, quando Chiang Ching, a mulher de Mao, e mais alguns malucos quase arruinaram a China.

Com o livrinho vermelho na mão e ao som de tambores e cornetas, uma multidão de jovens insuflados pelo dogmatismo tomou as ruas, invadiu escolas, universidades, fábricas e repartições públicas para caçar os “contra-revolucionários”. A turba assassinou milhares de intelectuais, professores, músicos e cientistas. Em Xangai, a “Guarda Vermelha” produziu afogamentos em massa. Livros, quadros, objetos de arte, instrumentos musicais e tudo o que pudesse lembrar refinamento, bom gosto, foi denominado “cultura burguesa” e incinerado em rituais públicos de inspiração medieval.

Pois bem, o que o maoísmo tem a ver com o Fórum Social Mundial? Nada. O FSM é um espaço de liberdade; uma liberdade com qual os chineses podem apenas sonhar. Até lá, os defensores dos Direitos Humanos da China terão ainda que enfrentar tanques pintados com estrelas vermelhas, como na Praça da Paz Celestial. E nós teremos que agüentar abobados da enchente pichando Porto Alegre com vivas ao Maoísmo, paciência.

Mas há outra esquerda presente no Fórum. Aliás, descontando a minoria dos grupos marxistas, trotskistas, maoístas etc., essa outra esquerda é quase todo o FSM. Ela não é barulhenta, prefere escutar e tem prazer em aprender. É uma esquerda que tem acumulado conhecimento em temas importantes e que quer ver esse acúmulo dividido entre todos e a serviço de projetos concretos de mudança.

Essa nova esquerda não goza com a revolução porque seu prazer é concreto, não virtual. Ao invés de uma paixão pela doutrina, ela se apaixona por pessoas, e, junto com elas, está disposta a enfrentar os poderosos em todo o planeta. Ela traz uma importante experiência de luta localizada e tem notícias sobre projetos que têm dado certo em diferentes partes do mundo.

Ela é anticapitalista, mas sabe que a democracia é uma conquista universal e que uma vida s