Três dias após impeachment, situação no Paraguai permanece incerta

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Publicado segunda-feira, 25 de junho de 2012 as 17:13, por: cdb

Três dias após impeachment, situação no Paraguai permanece incerta

Países sul-americanos isolaram novo presidente paraguaio, que não será convidado para Cúpula do Mercosul e não participou de uma teleconferência dos líderes do bloco com premiê chinês

Por: Tadeu Breda, Rede Brasil Atual

Publicado em 25/06/2012, 20:08

Última atualização às 20:08

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Cristina, Dilma e Mujica em teleconferência com premiê chinês: Mercosul discutirá situação do Paraguai durante cúpula (Foto: Presidencia de la Nación Argentina)

São Paulo – A situação política no Paraguai permanece incerta três dias após a destituição do presidente Fernando Lugo, que deixou o poder na última sexta-feira (22) vítima de um impeachment proposto, votado e aprovado pela Câmara e pelo Senado paraguaios em 36 horas.

Enquanto o ex-vice-presidente e novo chefe de Estado, Federico Franco, nomeia seu novo ministério, os países do Mercosul e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) recrudescem as sanções diplomáticas contra o Paraguai. Fernando Lugo, por sua vez, mudou de discurso: deixou de simplesmente acatar a decisão do Congresso e agora diz que apenas seu retorno à presidência pode solucionar a crise democrática vivida pelo país.

O novo governo do Paraguai está isolado na região. Com exceção das Guianas, todos os países da América do Sul retiraram ou chamaram para consultas seus embaixadores em Assunção. Nas relações internacionais, a atitude é mostra de descontentamento. E a saída dos diplomatas chilenos e colombianos demonstra que não são apenas os governos da chamada “esquerda sul-americana” que estão preocupados com a situação paraguaia.

A pressão regional pode ser bastante prejudicial à economia do Paraguai, que, além de ser um dos países mais pobres do continente, não possui uma saída para o mar. Depende, portanto, dos portos argentinos, brasileiros e uruguaios para transporte e abastecimento de mercadorias. Os paraguaios são um dos maiores exportadores de soja do mundo. Em 2007, cerca de 45% de suas vendas internacionais se dirigiam aos parceiros do Mercosul.

Aliás, o bloco econômico já aplicou duas sanções ao governo de Federico Franco. A primeira delas foi desconvidá-lo da Cúpula do Mercosul que ocorrerá em Mendoza, na Argentina, entre os dias 25 e 29 de junho. Em vez do novo presidente, é possível que Fernando Lugo participe da reunião: mesmo destituído, Lugo fez um pedido oficial aos vizinhos para assistir ao encontro. A segunda sanção foi a exclusão de Federico Franco de uma teleconferência mantida hoje (25) entre os líderes do Mercosul e o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, que está em visita oficial a Buenos Aires.

A Venezuela também materializou seu descontentamento com o Paraguai. O presidente Hugo Chávez anunciou no fim de semana uma interrupção imediata no envio de petróleo ao país. Uma eventual suspensão dos paraguaios do Mercosul, a ser analisada pelos líderes do bloco ainda nesta semana, pode abrir as portas para a entrada definitiva da Venezuela: o Congresso paraguaio foi o único que ainda não admitiu o ingresso dos venezuelanos.

Ao contrário dos parlamentares brasileiros, uruguaios e argentinos, os paraguaios acreditam que, com Hugo Chávez no poder, a Venezuela não cumpre as cláusulas democráticas do Mercosul. Agora, porém, é o novo governo do Paraguai, chancelado pelos deputados e senadores favoráveis ao impeachment de Fernando Lugo, quem está sendo acusado de descumprir os preceitos exigidos pelo bloco.

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República do Brasil, Gilberto Carvalho, declarou hoje (25) que o impeachment ocorrido no Paraguai é contrário à consolidação da democracia na América Latina. “O que se esperava era um aprofundamento da democracia e não a restrição do direito democrático à defesa. Por isso, nossa estranheza e perplexidade”, disse. “Acho correto que a Unasul e o Mercosul, que têm entre seus princípios a defesa da democracia, tomem atitudes fortes”.

O respaldo de todos os vizinhos pode ter sido a razão para que Fernando Lugo mudasse sua postura frente à destituição. Na sexta-feira, temendo episódios de violência, o presidente acatou a decisão do Congresso e saiu de cena, referindo-se a si mesmo como mais um cidadão paraguaio. Depois, apareceu de surpresa em frente ao canal público de televisão, criado em seu governo, onde se concentra um grupo de pessoas desconformes com o impeachment.

“Houve uma ruptura institucional do processo democrático, que foi reconhecida não apenas pelo povo paraguaio, mas também pela grande maioria da comunidade internacional”, criticou Lugo nesta segunda-feira, quando anunciou a formação de um gabinete para monitorar as medidas do novo governo e organizar uma resistência pacífica ao golpe junto aos movimentos sociais. “Não podemos saber o que passará no Paraguai nos próximos meses, mas a luta que estamos fazendo é para restabelecer a ordem democrática.”

Com informações da Agência Brasil e da Reuters.