Tirando o “Lulômetro” da tomada

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Publicado segunda-feira, 22 de julho de 2002 as 18:45, por: cdb

Está na hora dos banqueiros de investimento dos EUA pararem de brincar de “Lulômetro”. “Lulômetro” é a gíria criada pela imprensa brasileira para descrever a predileção de Wall Street em medir o futuro econômico do Brasil pelo crescimento ou queda da popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva, o candidato de esquerda que lidera as pesquisas para as eleições presidenciais de 6 de outubro.

Além dos nervosismos que Lula tem causado no mercado, além da inconseqüência jornalística, além do Brasil ter dívidas enormes, o que está acontecendo aqui é sério e fundamental. É algo tristemente emblemático de uma tendência excessivamente comum entre investidores estrangeiros: enxergar os mercados emergentes da América Latina através de uma única e indiscriminada lente, e de fugir ao primeiro sinal de problemas.

Wall Street está agindo como se o Brasil estivesse a caminho de se tornar a próxima Argentina, e, para cumprir esta profecia, está usando Lula quase como uma desculpa para empurrar o país, mais e mais, nesta direção. No entanto, o Brasil não é a Argentina, e olhando mais de perto se encontram algumas semelhanças, algumas conexões – mas também algumas diferenças realmente importantes.

Esse conto, assumidamente, começa com um tango, não com um samba. Uma crise financeira sem precedentes no país vizinho não afetou apenas o comércio bilateral (a Argentina era um dos maiores parceiros comerciais do Brasil), mas também o raciocínio de muitos investidores internacionais, cujo temor de que uma crise parecida pudesse atingir em breve o Brasil, fez nascer um prematuro e infundado pensamento pessimista.

Os acontecimentos na Argentina esfriaram os investidores em relação ao Brasil, mas esquentaram a visão que os brasileiros têm do Lula, o que aumentou as preocupações das empresas classificadoras de risco do EUA, que baixaram a avaliação do crédito do Brasil. Os investidores fugiram e os indicadores econômicos pioraram. No começo de Junho, o Fundo Monetário Internacional estava acenando que a gripe argentina estava prestes a se espalhar para o Brasil.

Como se esse contagio não fosse suficiente, o Brasil já tinha sido atingido pelo desaquecimento da economia mundial. O país enfrenta o protecionismo da administração Bush no aço e na agricultura, dois setores importantes das exportações brasileiras. Até mesmo os recentes escândalos financeiros dos EUA atingiram o país do futebol pentacampeão: a WorldCom é dona da Embratel, a maior operadora de telefonia de longa distância do Brasil.

Mesmo que não houvesse eleições, no Brasil estariam crescendo as pressões para algumas mudanças. E com o voto marcado para daqui a menos de três meses, é compreensível porque muitos eleitores parecem preferir a mudança em lugar da continuidade. Lula, um notório crítico do modelo econômico adotado pelo atual governo, representa esta mudança.

Uma pesquisa independente publicada esta semana mostra Lula, na sua quarta candidatura à presidência, mantendo a liderança, com 33% das intenções de voto, e Ciro Gomes, um ex-ministro da Fazenda de centro-esquerda, com 22%. O candidato escolhido a dedo pelo atual governo, o ex-ministro da saúde José Serra, estava com 15%, e caindo.

Com Lula na frente, por algum tempo as autoridades latino americanas pareciam estar exercendo o papel daqueles que em Washington são chamados “spin doctors” (porta-vozes), insistindo que a plataforma atual de Lula é mais moderada daquelas que ele defendia no passado. Por parte deles, algumas autoridades dos EUA estão se juntando ao coro, pregando que as políticas atuais estão tão firmemente instaladas, que não podem ser revertidas, independentemente de quem for o próximo presidente.

Eis o que o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Paul H. O’Neill, declarou depois de um encontro, na última semana, com Armínio Fraga, presidente do Banco Central do Brasil: “Eu continuo convencido de que o presidente Fraga e o governo brasileiro estão perseguindo políticas sólidas, voltadas par