Tim Lopes – Dois anos: O silêncio da TV Globo

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Publicado quarta-feira, 23 de junho de 2004 as 18:01, por: cdb

No mês do segundo aniversário de morte do jornalista Tim Lopes, o programa Direito em Debate, que vai ao ar ao vivo às quintas-feiras, às 21h, na TV Educativa do Rio de Janeiro, abriu espaço no último dia 17/6 para analisar os desdobramentos do caso Tim Lopes.

Abordando o tema “A responsabilidade do empregador pelos danos causados ao empregado durante o trabalho”, o programa contou com a participação do procurador do Trabalho Wilson Prudente – que preside o procedimento preparatório de inquérito que poderá vir a responsabilizar a TV Globo por não ter dado segurança necessária ao repórter -, do jornalista Mário Augusto Jakobskind, autor do livro Dossiê Tim Lopes – Fantástico Ibope, além dos advogados Angelito Porto Côrrea de Mello Filho e André Martins.

Embora não tenha se limitado a tratar apenas do caso Tim Lopes (falou-se de segurança no trabalho de várias profissões, tais como eletricistas, carteiros, operários da construção civil, empregados domésticos etc), o programa possibilitou uma oportunidade única de se debater na televisão questões, levantadas pelo livro, que demonstram como a TV Globo monopolizou a informação e conduziu como quis a cobertura do trágico episódio, não sofrendo qualquer questionamento crítico por parte dos demais órgãos da mídia.

Versão contestada

Pôde-se saber, por exemplo, que a ampla versão divulgada pela emissora – e que dois anos depois é repetida em todo o país toda vez que se faz referência ao caso -, de que Tim estava realizando uma reportagem sobre baile funk, foi contestada no relatório policial, aquele mesmo do qual o Jornal Nacional pinçou a frase de que Tim Lopes, “no afã de efetuar melhores imagens dos traficantes, se colocou muito perto do perigo, não vislumbrando a diferença da emoção para a razão, fato que ocasionou sua detenção e morte”.

O artifício de edição destinou-se a chocar a opinião pública, colocando-a contra o inspetor Daniel Gomes, de modo a tirar o foco sobre o restante do relatório, que demonstrava claramente a responsabilidade da Globo na morte do seu empregado.

E mais: a emissora direcionou uma campanha – amplamente abraçada pela grande imprensa – de desmoralização do inspetor, além de fazer uma enorme pressão junto ao comando da campanha petista em Brasília (era ano de eleições presidenciais), cobrando providências da governadora Benedita da Silva, segundo relato do jornal Extra (9/8/02), de tal forma que, algumas horas depois, no Jornal da Globo, era anunciada a demissão do inspetor e do delegado responsáveis pelo inquérito.

Não satisfeita, a TV Globo pressionou, no que foi acompanhada pela grande imprensa, para que se mudasse o relatório, chegando a governadora Benedita a anunciar que determinara a devolução do documento. No entanto, o Ministério Público, autor da ação penal e o único que poderia questionar a qualidade do trabalho apresentado, ofereceu denúncia, dois dias depois, dando início ao processo criminal, com base no relatório, considerando que havia provas técnicas suficientes, junto com confissões, para denunciar os indiciados.

Quem da imprensa se deu ao trabalho de ler o relatório e não embarcar na versão defensiva da Globo?

Lá estava escrito, por exemplo, que “a real presença de Tim Lopes no local se justificava a filmar o tráfico de drogas e o seu forte armamento e não o baile funk como foi propagado”. E ainda que, “com o primeiro trabalho denominado ‘Feira das Drogas’, Tim Lopes, sendo agraciado, tornou sua imagem pública”; ou seja, ao exibir sua imagem em todos os seus telejornais como ganhador do primeiro Prêmio Esso de Telejornalismo, a Globo tirou-lhe o anonimato, iniciando assim uma sucessão de erros que culminou na morte do repórter na Vila Cruzeiro, exatamente ao lado da Favela da Grota, onde ocorria a tal feira.

Falta de cooperação

Outro item do relatório que não interessava à Globo divulgar, e que passou despercebido pelo restan