Terremoto na energia

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Publicado quinta-feira, 24 de março de 2011 as 11:11, por: cdb

Durante todo o século 20, as potências imperialistas usaram a força das armas para garantir o controle das fontes de energia. Nada indica que agora agirão de outra forma

24/03/2011

 

Igor Fuser

 

Os dois eventos mais importantes deste início de ano, a rebelião dos povos árabes e o terremoto no Japão, apresentam algo em comum: ambos incluem entre suas consequências o agravamento da crise global da energia.

O impacto da revolta árabe sobre os suprimentos de petróleo se reflete no preço desse combustível, que já alcança 104 dólares o barril. Dois anos atrás, custava menos de 40 dólares. O aumento tem a ver com o corte das remessas da Líbia devido à guerra civil, mas expressa também preocupações mais duradouras. Afinal, está em jogo o futuro político de uma região que fornece 37% de todo o petróleo consumido no planeta e abriga em seu subsolo quase 70% das reservas mundiais desse combustível.

Ninguém sabe ainda qual será o alcance do vendaval de rebeldia que está varrendo o mundo árabe, do Marrocos ao Bahrein. Mas uma coisa é certa: para o chamado “Ocidente” (EUA e União Europeia), ficará mais difícil exercer o controle sobre o volume e os preços do petróleo do Oriente Médio. De agora em diante os governantes árabes, sejam eles quais forem, tenderão a adotar posturas mais soberanas. E o imperialismo enfrentará obstáculos crescentes para impor seus interesses, entre os quais se destacam o petróleo barato e a defesa incondicional de Israel.

Já a tragédia japonesa afeta a outra ponta do dilema energético. O perigo causado pelos danos em usinas atômicas reaviva a desconfiança global perante a energia nuclear, logo no momento em que ela se fortalecia como alternativa à diminuição da oferta de combustíveis fósseis.

No cenário que se vislumbra, pode-se prever que aumentará o valor estratégico das regiões e países produtores de petróleo e gás, cada vez mais valiosos. Crescerá a pressão política e militar sobre o Irã, a Venezuela e, ao que tudo indica, a Líbia.

Durante todo o século 20, as potências imperialistas usaram a força das armas para garantir o controle das fontes de energia. Nada indica que agora agirão de outra forma.

 

Igor Fuser é jornalista, professor de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero.

Texto publicado originalmente na edição 420 do Brasil de Fato.