‘Tendência é Brasil integrar comércio exterior à Presidência da República’

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Publicado quarta-feira, 20 de novembro de 2002 as 13:25, por: cdb

Na retomada das negociações referentes à Alca, no próximo governo do Brasil, segundo o cientista Riordan Roett, especialista em Brasil e diretor do programa do Hemisfério Ocidental da School of Advanced International Studies da Universidade Johns Hopkins, entrevistado pela BBC, a posição nacional deverá se aproximar da fórmula como os norte-americanos negociam seus acordos comerciais com o restante do mundo. A criação de um escritório destinado ao incentivo às exportações, com ligação direta com o presidente da República, como afirmou o cientista, está nos planos do próximo governo.

Leia a íntegra da entrevista concedida à repórter Cassuça Benevides.

– Como vai agir o governo Lula na questão do comércio internacional?

– O governo vai ser um pouco cético com relação ao modelo da Alca que existe hoje. Não é que o Lula ou o governo Lula vão ser contra a Alca, mas eles querem revisitar e renegociar algumas partes do modelo para assegurar que as negociações são iguais para todos os países do hemisfério.

O que exatamente incomoda o PT nas negociações da Alca?

– Por causa do protecionismo dos Estados Unidos nos últimos dois ou três anos. A Embaixada Brasileira em Washington fala muito sobre isso. Não há um level playing field (igualdade nas condições de concorrência). E Lula comentou durante a campanha, como também José Serra e até o presidente Fernando Henrique Cardoso disse que realmente os Estados Unidos não podem controlar o processo de negociações. Tem que abrir para a participação de todos os países. Logicamente o país mais importante será o Brasil e depois do Brasil o México.

O México faz parte do Nafta (área de livre comércio formada pelos Estados Unidos, Canadá e México) e tem uma posição um pouco diferente do Brasil.

O Brasil, como o país mais importante na economia latino-americana, tem que oferecer uma posição forte e transparente para negociar.

– E que poder de barganha o Brasil teria para mudar este quadro? O Mercosul, que era a maior moeda de barganha do Brasil está em crise e o Brasil, apesar de ter uma economia muito maior do que a do México, tem uma participação muito menor no comércio internacional do que os mexicanos. Qual é a carta que o governo Lula tem na manga?

– A carta que o Lula vai ter depois de janeiro será a de presidir a economia mais importante da América Latina. E também uma economia de peso mundial, não só nas negociações da Alca, como também na rodada de Doha, de abertura do comércio mundial na Organização Mundial do Comércio. E o Brasil vai ter uma posição bastante importante na rodada de Doha e pode haver uma conexão política entre a rodada de Doha e as negociações da Alca.

– Mas até agora apesar de ter posições muito claras com relação à ampliação do acesso dos seus produtos a novos mercados, principalmente os mercados dos países desenvolvidos. E contra o protecionismo dos Estados Unidos, o Brasil só tem sofrido com o aumento de barreiras.

– Por isso mesmo que eu acho que o Lula vai tentar estabelecer um diálogo com os Estados Unidos, mas também com outros países da América Latina, sobre uma posição razoável para a AL nas negociações. Dada a pobre posição do Mercosul hoje em dia, o Mercosul não faz um contraponto ao Nafta, mas o Brasil tem peso.

Em termos domésticos o governo do Brasil tem que indicar os brasileiros que vão tentar defender os interesses reais do país no novo quadro global. Se eles vão ter sucesso é outra coisa.

– Até hoje o governo brasileiro usou o Itamaraty como principal negociador para tratados de comércio internacional. O Sr. acha que isto pode mudar?

– Serra e Lula falaram de novas estruturas para a negociação, durante a campanha. Ainda não está claro o que o novo governo e o PT querem. Se querem reforçar a posição do Itamaraty, se querem um representante de comércio que tenha um escritório no Palácio com o presidente. Acho que tudo isto está em debate dentro do partido.

– Isto que o