Tão longe, tão perto

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Publicado terça-feira, 11 de janeiro de 2005 as 13:09, por: cdb

Em co-edição, a Editora Unesp e o Instituto de Economia da Unicamp nos presentearam, no fim de 2004, com um belo livro de Luiz Gonzaga Belluzzo, “Ensaios sobre o Capitalismo no Século XX”. Trata-se de uma coletânea de artigos, de 1996 a 2003, do renomado professor da Unicamp, articulista sempre presente em Carta Capital, onde assina uma coluna semanal, na Folha de S. Paulo na Agência Carta Maior, esporadicamente. A seleção e a organização são de Frederico Mazzucchelli, também professor do mesmo instituto.

Trata-se de resgatar da pressa com que se lêem jornais e revistas artigos cuja densidade o leitor avaliará imediatamente, repartidos em quatro partes, a saber, História (I), O Mal-Estar da Globalização (II), Críticos (III) e Futebol (IV). Atento às especificidades de cada conjuntura, uma espécie de “carga da brigada ligeira”, nosso autor não as descola da perspectiva de longo prazo, o que confere uma extraordinária unidade ao conjunto de artigos selecionados. Mas tampouco as trata como exterioridades da longue durée, e ao contrário como seus momentos constitutivos.

Belluzzo pertence à linhagem inaugurada por Joan Robinson, a grande dama da economia política inglesa, do saudável ecletismo – mas não pastiche – de combinar Marx e Keynes, que entre nós produziu Celso Furtado e Ignácio Rangel. Este assumiu mais claramente o traço de Marx, enquanto Celso enfatizava a contribuição keynesiana para a teorização da Cepal. Belluzzo certamente é, ao lado de Maria da Conceição Tavares – esta mais cepalino-marxista -, hoje, o mais representativo dessa síntese, felizmente em renovação nos trabalhos de economia política, tal como se vê nas reuniões da Sociedade Brasileira de Economia Política e na rica produção felizmente espalhada nas principais universidades públicas do país. Livros recentes, entre os organizados, por exemplo, por João Sicsú, como o novíssimo Novo-Desenvolvimentismo (Manole-Konrad-Adenauer-Stiftung), mostram a vitalidade dessa linhagem.

Ancorado nos dois grandes clássicos, um do século 19 e o outro do século 20, Belluzzo alarga as perspectivas de análise e compreensão da História, servindo-se do que há de melhor nas ciências humanas, muito para além da estreiteza economicista típica das novas gerações formadas sob a influência, deletéria sob muitos aspectos, da produção anglo-saxônica. A crítica frankfurtiana à crença no progresso linear da tradição iluminista é incorporada em diversos momentos das análises, ampliando o arco das críticas que não se detêm nas “imperfeições” do mercado e das informações, para alcançar uma perspectiva sistêmica de longo fôlego.

Tudo isso é oferecido ao leitor numa escritura clássica e enxuta, bem-humorada e cáustica na hora certa, a salvo do horroroso economês, o que não quer dizer superficialidade, mas abertura para o leitor. É a formação dos leitores em economia política, como diria Antonio Candido, um dos objetivos deste livro.

Um dos momentos mais altos é o artigo nº 6, da Parte I, As Máscaras do Imperialismo, em que o recurso ao “desigual e combinado” da tradição marxista revela o “combinado e desigual” do subdesenvolvimento. A inversão dos termos da equação, de minha responsabilidade, não é um simples deslocamento, mas a diferentia specifica do subdesenvolvimento: o “desigual e combinado” explica as tensões da dinâmica capitalista nos países originários, dando-se precedência ao “desigual”, enquanto na periferia o primeiro termo, “combinado”, explica os impasses do subdesenvolvimento. Em outros termos, o subdesenvolvimento explica-se porque é o combinado que produz a desigualdade, enquanto no centro hegemônico é o desigual que produz a combinação de tempos e departamentos.

O tema favorito de Belluzzo, que percorre todas as páginas de todos os artigos, é a crítica ao laissez-faire e a seus ideólogos, cuja última versão se cristaliza em pretensiosas teorias da globalização. Não se trata de implicância ideológica da parte de nosso autor