Tancredo e a transição democrática

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado terça-feira, 18 de janeiro de 2005 as 12:35, por: cdb

Passaram muito velozes os últimos vinte anos. Já temos, de normalidade democrática, quase tanto tempo quanto durou o regime autoritário, do qual foram garantidores os chefes militares, e, beneficiários diretos alguns grandes empresários brasileiros, empresas multinacionais e tecnocratas. Do ponto de vista estrutural, as coisas não mudaram muito: continuam sendo beneficiários os grandes empresários brasileiros, as empresas multinacionais e os tecnocratas. Muita coisa, no entanto, mudou: em lugar de um general, temos, na Presidência da República, o torneiro mecânico Luis Inácio. 

Nestes vinte anos, se não conseguimos debelar a peste da corrupção, nem corrigir as injustiças sociais, fomos capazes de retirar da Chefia do Estado um presidente que conseguira enganar as grandes massas e fizera do Palácio do Planalto a gruta de Ali-Babá. Alguns dos antigos jovens que combatiam a Ditadura de armas nas mãos, e outros, que atuavam politicamente, emergiram da clandestinidade ou retornaram do exílio, amadurecidos pela experiência, a fim de ocupar postos destacados na administração do país. Não foram ainda capazes de construir a sociedade pela qual haviam lutado e, na luta, visto perecer muitos camaradas.

Alguns se mostram arrependidos de haver preferido a guerrilha à paciente luta política, o que é respeitável. Outros, entre os que lutaram politicamente ou de armas nas mãos, abjuraram seus ideais, o que é menos aceitável. O fato é que dispomos de liberdade de organização política, pelo menos formal, e de liberdade de expressão, ainda que contida pelas contingências econômicas a que se vêem submetidos os meios de comunicação de massa. Por mais que haja saudosistas daquele tempo, estes vinte anos não foram perdidos. O que nos tem dificultado, nessa retomada da normalidade histórica, é o novo desenho do poder mundial, que nos tornou hoje vassalos de novo tipo de totalitarismo globalizado – depois da queda do muro de Berlim e da ereção de outros muros.

A ponte

A reconquista dos ritos democráticos e do Estado de Direito foi obra de todo o povo brasileiro, mas, sobretudo, de um punhado de homens públicos que soube articular-se na ação política, paciente e firme. Homens como Ulysses Guimarães e Tancredo; Franco Montoro e Severo Gomes; Aureliano Chaves e Leonel Brizola; Miguel Arraes, Teotônio Vilela e Paulo Brossard. Alguns mais arrebatados, outros mais contidos, mas todos conscientes de que não havia outro caminho que não fosse o do voto democrático.

Um deles, no entanto, se destacou no grupo. Ele emergia, naturalmente, como o grande construtor da ponte para a transição. Era dos mais antigos homens públicos brasileiros, com a experiência de cinqüenta anos, iniciada ao eleger-se vereador em velha e emblemática cidade mineira. Exercera as mais altas funções republicanas – exceto a Presidência da República. Mas comandara o governo, como primeiro-ministro, na curta e fecunda experiência parlamentarista, quando consolidou a paz política, manteve os militares sobre controle, consolidou a Petrobrás, ganhou o contencioso contra os ingleses da Leopoldina Railway e retomou a política desenvolvimentista de Juscelino.

Ele dedicara cada hora e cada minuto de sua vida, a partir daquele fatídico primeiro de abril de 1964, a demolir a ditadura e refazer a República. Como os garimpeiros de sua região, esperou o momento certo. Ele previra que o eclipse duraria vinte anos, naquela noite em que investiu, com a ira dos justos, contra o senador Auro de Moura Andrade, que declarara, contra a Constituição e contra a ética, vacante a presidência da República, quando Jango ainda se encontrava em território nacional.

O nacionalista

Como colaborador de Tancredo, em seus últimos dez anos de vida, posso testemunhar que o político mineiro sabia muito bem de onde viera o golpe. Sabia claramente que aos norte-americanos não interessava o desenvolvimento econ