Suicidas palestinos impressionam Festival de Berlim

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Publicado segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005 as 19:55, por: cdb

Dois palestinos a ponto de cometer um atentado suicida, opção do paraíso frente ao inferno dos territórios ocupados, causaram impacto no Festival de Cinema de Berlim.

“Paradise Now”, dirigido por Hany Abu-Assad, levou ao festival a crueldade no Oriente Médio com um retrato detalhado de dois terroristas dispostos a agir. “Não é um filme pró-palestino. Eu jamais faria um filme com essa mensagem. Mas acredito que a ocupação é a culpada por tudo e tento refletir o que esse fato pode fazer com uma pessoa”, explicou o cineasta.

Said e Khaled -interpretados por Kais Nesif e Ali Suliman- são os escolhidos para o ataque suicida. Eles recebem a ordem de atuar com tempo apenas para passar a última noite com sua família, que, segundo seus instrutores, não deve perceber o que acontecerá.

Enquanto a câmera de Abu-Assad os acompanha em suas últimas horas, Khaled duvida da legitimidade da ação. Said, filho de um colaborador executado como traidor, não hesita em seguir o caminho escolhido, mas treme diante de um atentado no qual inocentes morrerão.

O ritual do muçulmano que se prepara para “matar o inimigo”, incluindo a leitura de seu testamento pela segunda vez depois da câmera não ter gravado a primeira, faz parte dos preparativos de uma ação para a qual não haverá repetição possível.

De Nablus, com edifícios e fachadas destruídos, eles chegarão à Tel Aviv com seus arranha-céus cobertos de anúncios e mulheres passeando de biquíni. Será o momento do agora ou nunca.

“O paraíso pode estar somente na minha cabeça. Mas é melhor do que o inferno em que vivo”, conclui um dos escolhidos para morrer, transformado em uma bomba humana.

A rodagem, além de difícil, foi “perigosa”, declarou Abu-Assad, que foi ao Festival de Berlim acompanhado de toda sua equipe, incluindo Amil Harel, produtor israelense.

Mas distribuir o filme no Oriente Médio será complexo. “Seria maravilhoso passar essa produção em Nablus, mas não há cinema na cidade e sua exibição em Israel dependerá de se haverá ou não atentados na estréia”, disse o diretor.

Depois do cru testemunho do jovem diretor palestino, foi apresentado um decadente François Mitterrand em “Le promeneur du Champ de Mars”, de Robert Guediguian.

Assim como na produção de Abu-Assad, a de Guediguian também conta a história de um homem que se prepara para morrer. Mas seu entorno é muito diferente do inferno de Nablus.

Um megalômano Mitterrand -interpretado por Michel Bouquet-, convencido de que é o “último grande presidente que a França terá”, relata a um jornalista de 30 anos como deseja que seja o livro de sua vida.

Debilitado por uma doença e pelos anos, o presidente não quer um jornalista, mas um escrivão. Antoine -Jalil Lespert- é quem assume esse papel e sua existência parece mais decrépita e decadente do que a do próprio patriarca socialista.

Outro destaque do Festival é a direção de Ermanno Olmi, Abbas Kiarostami e Ken Loach em “Tickets”, um pequeno e maravilhoso presente na seção oficial, embora fora de concurso.

A história de vários “estranhos em um trem”, dividida em três episódios, mas com um fio condutor, conta também com a gratificante presença de Valeria Bruni Tedeschi.

Além disso, mostra como três direções diferentes, com um diretor italiano, um iraniano e outro inglês, podem acabar em um filme harmonioso.