Suíça completa dez anos na ONU

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Publicado sexta-feira, 2 de março de 2012 as 04:04, por: cdb

Em 3 de março de 2002, o povo suíço aprovava com estreita maioria a adesão do país às Nações Unidas.

Foi uma decisão histórica tomada depois de meio século de temores ligados sobretudo à vontade de manter uma neutralidade que vem sendo relativizada nos últimos anos.

“Os suíços chegaram. Havíamos esperado durante muito tempo”, declarou dez anos atrás o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, ao acolher a deleção suíça em Nova York. Foi uma longa espera, tão grande quanto os temores e as divergências que haviam predominado na Suíça no confronto das Nações Unidas, desde sua fundação em 1945 até a adesão em 2002.
 
Esse meio século de hesitação da Suíça havia suscitado muita incompreensão no estrangeiro. Como pode o país que tinha participado ativamente na Sociedade das Nações antes da Segunda Guerra Mundial, que havia hospedado a sede europeia e numerosos órgãos da ONU, se obstinava em não aderir às Nações Unidas?
 
Para entender o “paradoxo suíço” é preciso voltar a 26 de junho de 1945 , quando 51 países firmaram a Carta da ONU em São Francisco, Estados Unidos. A Suíça decide ficar de fora, por diversas razões. A falência da Sociedade das Nações tinha provocado grande desilusão e a nascente ONU era vista como uma espécie de clube das potências vencedoras. Vamos deixar agir os grandes e depois veremos, era a opinião difundida na época na Suíça.

Neutralidade absoluta

Porém, a razão principal estava ligada ao conceito de neutralidade cultivado pelas autoridades. Aderindo à Sociedade das Nações em 1920, o governo suíço tinha optado por uma neutralidade diferenciada – segundo a qual a Confederação era politicamente neutra, mas participava de sanções econômicas. Em 1938, diante da ameaça de guerra, o governo federal voltou ao conceito de neutralidade integral.
 
“Essa visão de neutralidade integral ou absoluta vigorou durante e depois da Segunda Guerra Mundial. Pensava-se ou se fingia pensar que a neutralidade salvou a Suíça do conflito. Isso cria espaço para a propaganda interna, mas ainda defendia a Suíça de ataques do estrangeiro”, explica o historiador Carlo Moos, professor na Universidade de Zurique.
 
“No estrangeiro se observada sobretudo os negócios da Suíça com a Alemanha nazista durante a guerra. Para os Estados Unidos, mas também para a Grã-Bretanha e a União Soviética, o prestígio da Suíça era muito abalado devido essa neutralidade fingida. A neutralidade suíça era mal considerada por eles.”

Instituição comunista

A neutralidade helvética foi relançada poucos anos depois, no início da Gerra Fria. “Mesmo se durante esses anos a neutralidade foi uma ficção, do momento em que a Suíça estava solidamente ancorada no bloco ocidental, para as superpotências, sobretudo para os Estados Unidos, a neutralidade era cômoda e foi inclusive valorizada”, afirma Carlo Moos.
 
Enquanto outros países neutros aderiam à ONU, a Suíça continuou a cultivar durante décadas a ideia de uma neutralidade absoluta, inconciliável com uma participação nas Nações Unidas. Em 1986, uma primeira proposta de adesão foi rejeitada por 75% dos eleitores.
 
“Um dos grandes problemas para aderir era que a ONU era vista nos círculos burgueses e de direita como uma instituição controlada pelos países comunistas, principalmente a Assembleia-Geral. Com a descolonização, muitos novos Estados se associaram ao bloco do Leste”, acrescenta o historiador.

Nova vertente

Com a queda do Muro de Berlim em 1989, a neutralidade da Suíça perde importância no cenário internacional e seu aspecto ideológico perde espaço dentro do país. Uma nova vertente começava a dominar os debates na Suíça: maior abertura para o mundo – para a ONU e a UE – mas os opositores da direita nacionalista cresceram muito nos últimos 20 anos.
 
Primeiro, a Suíça não podia mais esconder-se em sua própria neutralidade e devia abandonar a política regional pela solidariedade com o resto do mundo e para defender melhor seus próprios interesses. Em contrapartida, essa abertura ameaçava não apenas a neutralidade, mas ainda a soberania nacional e a coesão do país.
 
Essa visão não è majoritária na Suíça, mas é menos compreensível no estrangeiro. “È um paradoxo: ninguém viaja mais ao exterior do que os suíços. Nenhuma economia exporta mais percentualmente do que a da Suíça. Nenhum país tem tantos estrangeiros residentes e hospeda tanto capital estrangeiro com as multinacionais”, afirmava em 2002 o semanário alemão Die Zeit, observando que a Suíça era um dos últimos países fora da ONU.

Posição imutável

Foi preciso esperar mais um pouco para dar o passo histórico Em 13 de março a iniciativa popular pela adesão foi aprovada por 54% dos eleitores que votaram. Poucos anos antes, o relatório Bergier – encomendado pelo governo depois do escândalo dos fundos hebraicos depositados em bancos suíços – desmistificava  a  neutralidade suíça durante a Segunda Guerra Mundial esclareceu as relações com o Terceiro Reich.
 
Dez anos depois da adesão, o céu não caiu na cabeça dos irredutíveis suíços, mas as posições não mudaram. “O balanço é lamentável. De um lado nossa neutralidade é reduzida de ano em ano e de outro a participação na ONU não permitiu melhorar os contatos e a posição da Suíça no mundo. O melhor exemplo são os ataques conjuntos dos Estados Unidos e da UE contra nossa praça financeira e o sigilo bancário”, declara Werner Gartenmann, diretor da Associação por uma Suíça Independente e Neutra, um movimento de direita.  
 
“Os temores revelaram-se infundados enquanto muitas expectativas foram realizadas”, defende o Secretário de Estado Peter Maurer, fazendo o balanço desses dez anos. “Em 2002, tomamos a decisão certa num momento crítico da história em que se estava perigosamente instigando outros países a ter uma atitude hostil contra a Suíça.”

Armando Mombelli, swissinfo.ch
Adaptação: Claudinê Gonçalves