Strauss-Kahn: do topo ao abismo

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Publicado terça-feira, 27 de março de 2012 as 19:48, por: cdb

Strauss-Kahn: do topo ao abismoO buraco negro que envolve Dominique Strauss-Kahn parece não ter fim. As acusações que pesam sobre esse político e brilhante economista podem custar-lhe 20 anos de prisão. O fio desta meada sexual é por demais alucinante e pode deixar perplexos os mais experimentados roteiristas. Quando parecia que o enredo iniciado em Nova York tinha chegado ao fim, as comportas se abriram na França com o caso do Hotel Carlton, na cidade de Lille. O artigo é de Eduardo Febbro.

Eduardo Febbro – De Paris

Paris – A vida pode parecer muito breve ou muito longa. Quando menos se espera irrompe isso que chamamos de destino, que é formado por nossos atos, e tudo muda. Alguns vão do nada ao topo e outros, como o ex-diretor gerente do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, do topo ao abismo. Esse buraco negro não parece ter fim para quem foi, até bem poucos meses, um dos homens mais poderosos do planeta, o quase próximo presidente da França e o paradoxal porta-bandeira do liberalismo com uma trajetória no Partido Socialista francês.

O último ato do ocaso de Strauss-Kahn se parece com o primeiro: uma obscura trama com mulheres, onde aparecem envolvidos policiais de alto escalão, serviços secretos, um hotel internacional, políticos, empresários, uma rede de prostituição, proxenetas e cafetões que rondam as cercanias dos apetites do poder. Três juízes do norte da França acusaram Dominique Strauss-Kahn de participar de um esquema de prostituição dentro do caso do Hotel Carlton que o liga com uma rede de prostituição internacional. Dez meses depois de ter sido detido e acusado de agressão sexual nos Estados Unidos por outro tenebroso episódio com uma empregada do hotel Sofitel de Nova York, caso do qual saiu ileso penalmente, seu apetite sexual voltou a ser notícia na França. Poder e saias. Um coquetel mal misturado que se tornou fatal.

Dominique Strauss-Kahn teve uma trajetória política paradoxal, quase um espelho do rumo que tomou a social democracia nos últimos 20 anos. De esquerda, mas trabalhando no coração do inimigo, o Fundo Monetário Internacional, onde chegou depois de um acordo prévio com o presidente francês, o ultra-liberal Nicolas Sarkozy, de quem obteve o apoio. Sarkozy quis afastá-lo da França para enfraquecer o PS. Esse ramo da história já é uma novela em si: um socialista convertido às virtudes liberais no comando do organismo que policia os planos de ajuste do planeta. Strauss-Kahn era também o escolhido por todas as pesquisas de opinião para ganhar as eleições presidenciais de abril/maio próximos, mas caiu às portas da glória final.

As acusações que pesam sobre esse homem político e brilhante economista podem custar-lhe 20 anos de prisão. O fio desta meada sexual é por demais alucinante e pode deixar perplexos os mais experimentados roteiristas. Quando parecia que o enredo iniciado em Nova York tinha chegado ao fim, as comportas se abriram na França com o caso do Hotel Carlton, na cidade de Lille. Neste hotel funcionava uma rede de prostitutas administrada por um cafetão belga de cujos serviços, tanto em Paris como em Washington, Strauss-Kahn gozou repetidas vezes. As agora chamadas “noites libertinas” de DSK – como é chamado na França – tinham altos custos: viagens intercontinentais, hotéis de cinco estrelas e champagne em abundância. A Justiça suspeita que Strauss-Kahn sabia perfeitamente que aquelas damas viajantes eram prostitutas e tenta saber de onde vinha o dinheiro para pagar esses serviços.

Os detalhes foram surgindo aos poucos na imprensa até que a cortina foi inteiramente aberta expondo as mais estranhas intimidades. As mensagens de celular trocadas entre DSK e alguns protagonistas do caso são uma coleção de histórias para adolescentes nas quais homens de grande poder acertam noitadas com prostitutas e festas de arromba.

A rede de mulheres era dirigida desde a Bélgica por um suposto cafetão, dono de casas de massagem que eram bordéis, Dominique Alderweireld, também conhecido como Dodó Salmoura. No total, os atores centrais desse clube são oito: Dodó e sua mulher, dois oficiais de polícia (um deles é o comissário Jean-Christophe Lagarde, um alto responsável da região norte), um dos responsáveis da empresa BTP Eiffage, o diretor e o chefe de relações públicas do hotel Carlton de Lille e DSK. Dodó Salmoura administrava para o grupo as atenções especiais de senhoritas de várias nacionalidades que vinham a França desde a Bélgica e também iam a Washington, onde DSK vivia e onde está a sede do FMI. Durante sua prisão na França, Strauss-Kahn disse que não podia imaginar que aquelas jovens eram prostitutas já que algumas delas “foram apresentadas por funcionários da polícia”.

As investigações determinaram também que várias viagens das prostitutas foram organizadas e financiadas por dois empresários do norte da França, Fabrice Paszkowski, diretor de uma empresa de material médico, e David Roquet, ex-diretor de uma filial do grupo de obras públicas Eiffage. Ser cliente de prostitutas é legal na França, mas não a “cumplicidade com a cafetinagem agravada com a formação de quadrilha” e o “encobrimento de abusos de bens sociais”. A ilegalidade está em aceitar que outros custeiem os favores sexuais em troca de regalias aos amigos empresários.

A última excursão intercontinental das mulheres foi para Washington entre 11 e 13 de maio, justamente às vésperas da detenção de Strauss-Kahn pelo caso da empregada do hotel Sofitel de Nova York, Nafissatou Diallo, que acusou DSK de agressão sexual. Neste episódio ficaram no ar inúmeras dúvidas nas quais se baseou a justiça de Nova York para abandonar as acusações contra DSK. Também subsiste a suspeita de um complô ou de um erro estúpido de DSK imediatamente aproveitado por seus rivais políticos para derrubá-lo. Os vídeos do hotel Sofitel mostram que há um abismo entre o que a camareira alega e o que se vê.

Strauss-Kahn enfrentou até agora três vezes a justiça pela mesma razão: as mulheres. No ano passado esteve preso em Nova York por causa do escândalo do hotel Sofitel. Quando regressou a França se viu de novo às voltas com a Justiça por acusações de abuso sexual apresentadas por uma jornalista. A justiça não o processou. Em fevereiro, Strauss-Kahn passou a noite em uma cela antes de ser interrogado pela polícia no marco do caso do Hotel Carlton.

Isso custou-lhe agora a acusação formal. Mas não é tudo. O ex-diretor gerente do FMI enfrenta em um tribunal do Bronx, em Nova York, a ação civil impetrada pela camareira do Sofitel, Nafissatou Diallo. Ali se negociará não a culpabilidade de Strauss-Kahn, mas sim um acerto financeiro entre as partes.

O calendário quer que o desenlace destes fatos ocorra no momento em que está ocorrendo na França a campanha para as eleições presidenciais de abril e maio próximos. Antes de ser decapitado pelo caso Sofitel, Strauss-Kahn era o candidato natural do PS e arqui-favorito das pesquisas. Hoje não pode nem se mover. Cada vez que tenta dar uma conferência, como ocorreu na Inglaterra ou no Parlamento Europeu uma onda de repúdios públicos o aguarda. DSK terminou entrincheirado pelas orgias de sua intimidade. O escândalo de Carlton veio confirmar por outra via o frenesi sexual de um homem que foi socialista e assumiu o comando do FMI, que ia ser presidente e que agora está enredado em uma história baixa de prostitutas, policiais, empresários e cafetões de bairros suspeitos.

Tradução: Katarina Peixoto

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