Stédile: Política econômica de Lula e Palocci é ‘um desastre’

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Publicado terça-feira, 15 de novembro de 2005 as 21:39, por: cdb

Um dos principais líderes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), o economista João Pedro Stédile, em entrevista exclusiva ao Correio do Brasil, avalia a crise deflagrada pelas denúncias ao ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e pelas críticas da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef. Segundo Stédile, “a questão central é analisarmos que o governo Lula, ao contrário do que prometeu em campanha, não mudou a política econômica”.

Para o líder sem-terra, a passagem de Palocci pelo Ministério da Fazenda tem sido “um desastre” para os brasileiros, de forma em geral, devido aos cortes produzidos para gerar excedente financeiro a ser exportado para as economias mais fortes do mundo, através do Fundo Monetário Internacional (FMI), com uma política de arrocho econômico, voltada apenas aos interesses externos.

Leia a entrevista, na íntegra:

– Stédile, como o senhor vê essa situação em que o Palocci se encontra?

– O problema não é analisar a situação pessoal do ministro Palloci. A questão central é analisarmos que o governo Lula, ao contrário do que prometeu em campanha, não mudou a politica econômica. Manteve uma politica econômica de natureza neoliberal, baseda em altas taxas de juros, no superávit primário, para garantir recursos do orçamento público, portanto dos impostos, para pagar aos bancos e priorizar as exportações. Essa política é um fracasso para o povo brasileiro, interessa apenas aos bancos e às empresas que ora exportam, ora importam. A equipe econômica apenas aumentou a desigualdade na sociedade brasileira e não prioriza o emprego e a producão para resolver os problemas do povo. É mais do que tempo de mudar essa politica. E isso é de responsabilidade direta do presidente Lula.

– Com a possível saída do ministro, o senhor acredita em um aumento mais vigoroso no ritmo do desenvolvimento nacional?

– O que importa não é nem quem sai, nem quem entra. O que importa é se vai manter a atual politica neoliberal, ou vai mudar a política (econômica). E isso precisa ser anunciado pelo presidente. Até agora, ele apenas tem reafirmado que essa é sua politica, e que não vai mudar. Entao, pessoalmente, estou pessimista.  Acho que o governo é refém de seus acordos com as elites, para manter a governabilidade..

– O que a política do ministro Palocci significou, até agora, para o MST?

– Um desastre.  Por duas razões fundamentais:  Do ponto de vista de recursos do orçamento público para a reforma agrária. Os parlamentares aprovaram o Orçamento da União, que vira lei e, depois, o ministro da Fazenda mandava cortar pela metade. Foi assim com a  Reforma Agrária e com todas as áreas sociais, da Saúde, Educaçao, enfim, todas elas. Veja o caso hilário do Fundeb. O ministro da Educação manda um projeto de lei para o Congresso, com o objetivo de aprovar uma verba especial para o ensino fundamental no pais. Todos consideram importantissimo investir em Educação, mas o Ministerio da Fazenda não aceita. É como se fizesse parte de outro goverrno, daquele governo que vem do Norte, mandado pelo FMI, pelo Banco Mundial, pelo governo Bush.

– E a segunda?

– A segunda razão é o próprio projeto de desenvolvimento. Essa politica neoliberal não é um projeto de desenvolvimento nacional. Ao contrario. É usar o Estado para o capital financeiro acumular, gerar mais lucros. Ora, a reforma agraria é apenas um instrumento de distribuição de renda, para combater a pobreza, gerar emprego, segurar a população no campo e produzir alimentos. A politica economica neoliberal é completamente antagônica a isso.  Por tanto, se a politica econômica não mudar, está inviabilizada a Reforma Agrária.

– Quem o senhor acredita que poderia substituir o ministro e imprimir a queda nos juros brasileiros?

– O problema não é citar pessoas. O Brasil está cheio de quadros capacitados e competentes par