Socialistas franceses não sabem o que fazer com Strauss-Kahn

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Publicado quarta-feira, 7 de setembro de 2011 as 10:19, por: cdb

Socialistas franceses não sabem o que fazer com Strauss-KahnO PS está em pleno processo eleitoral para as primárias de outubro e as pesquisas mostram que o escândalo sexual do ex-candidato não afetou a credibilidade do partido. Mas seus correligionários preferem que Dominique Strauss-Kahn fique longe e calado. DSK adiantou que falará com a imprensa em breve. Isso significa que vai se explicar sobre o que aconteceu, ou seja, que vai tentar limpar sua imagem degradada com uma boa campanha de comunicação.

Eduardo Febbro – Página/12

Apenas um sorriso como declaração. Dominique Strauss-Kahn regressou domingo a sua casa em Paris quase quatro meses depois de ter tentado fazer o mesmo em um voo que o trazia de Nova York à capital francesa. O ex-diretor gerente do Fundo Monetário Internacional foi preso no dia 14 de maio, acusado por uma camareira do hotel Sofitel, de Nova York, de uma brutal tentativa de violação. Preso, encarcerado e depois confinado em uma luxuosa mansão nova-iorquina, Strauss-Kahn foi liberado de todas as acusações no dia 23 de agosto. Neste período, o economista francês perdeu o posto no FMI e, sobretudo, sua condição de candidato socialista preferido para as eleições presidenciais de 2012. Seu retorno ocorre em um mau momento para o Partido Socialista francês. O PS está em pleno processo para as eleições primárias de 9 e 16 de outubro e ninguém sabem muito bem que papel poderá desempenhar o ex-presidenciável que sofreu uma queda nos abismos.

As pesquisas realizadas até agora não deixam dúvida: o escândalo Strauss-Kahn não afetou a credibilidade dos socialistas como partido. Uma pessoa próxima a ele disse à imprensa francesa: “Já tínhamos nos acostumado com a sua ausência, mas agora que ele voltou, não sabemos muito bem o que podemos fazer com ele”. A situação de Strauss-Kahn e de seus aliados é por demais cômica: ninguém o renega, mas sua circulação no terreno político é incômoda. “É preciso dar tempo ao tempo”, recomendava no domingo passado a ex-candidata socialista Ségolène Royal. Mas não há muito tempo. Em um mês ocorrem as primárias e, em maio próximo, a eleição presidencial. Qualquer erro de Strauss-Kahn pode dinamitar o partido. Manuel Vals, outro dirigente socialista de peso e aspirante à candidatura, descartou qualquer intervenção do economista na campanha: “Dominique é consciente de que representa um problema para a esquerda, o PS e os franceses. É sobre isso que deve se explicar. As primárias serão realizadas sem ele”.

De fato, a palavra de Strauss-Kahn a favor de um ou outro dos aspirantes socialistas à candidatura do partido é capaz de destruir o candidato que receber seu apoio. O silêncio parece a melhor regra, mas isso não está garantido. Strauss-Kahn pode pensar na possibilidade de apoiar um candidato só para prejudicá-lo. Sua imagem e sua palavra estão contaminadas. DSK é como uma brasa que passa rapidamente de mão em mão. No entanto, as coisas não são tão simples e a arte de comunicar pode modificar as regras em curso.

Dominique Strauss-Kahn adiantou que falará com a imprensa em breve. Isso significa que vai se explicar sobre o que aconteceu, ou seja, que vai tentar limpar sua imagem degradada com uma boa campanha de comunicação. Se essa operação tiver êxito então sua palavra recupera todo seu valor. Há quem enxergue um futuro para ele mais adiante. Caso o candidato socialista derrote em maio o presidente Nicolas Sarkozy, Strauss-Kahn poderia desempenhar um papel importante no Executivo. As pesquisas indicam que a maioria dos franceses não deseja que DSK volte à ação política.

No entanto, um de seus assessores, o deputado socialista Jean Marie Le Guen, comentou que a França “não pode se privar de suas competências em matéria de economia internacional”. Mas DSK é hoje um homem queimado, não só pela acusação da camareira, da qual saiu ileso, mas sim pelas revelações sobre sua vida privada e seu gosto quase brutal por sexo, que acabaram vindo a público com o episódio do hotel Sofitel. Se o capítulo judicial de Nova York está encerrado, há um outro aberto que o aguarda na França. Uma jornalista francesa, Tristane Banon, acusa DSK de outra tentativa de abuso sexual que teria ocorrido em 2003 em um apartamento parisiense.

Dos três principais pretendentes à candidatura socialista, Martine Aubry, atual primeira secretária do PS, François Hollande, ex-primeiro secretário, e Ségolène Royal, só Aubry manifestou-se contra Strauss-Kahn. Aubry disse em uma entrevista que compartilhava “a opinião das mulheres sobre o comportamento de Strauss-Kahn”. Outro candidato menor, Arnaud Monteburg, foi mais categórico: “Que peça desculpas e se cale”. Strauss-Kahn passou de santo da vitória segura a demônio que flerta com a derrota. É difícil prever, em meio a essa bruma, qual poção mágica comunicacional Dominique Strauss-Kahn poderia usar para recuperar uma porção da credibilidade e do paraíso perdidos.

Tradução: Katarina Peixoto