Sob o signo caótico do anti-filme

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Publicado sexta-feira, 10 de outubro de 2003 as 20:24, por: cdb

O cineasta Rogério Sganzerla acaba de receber o prêmio especial do Festival do Rio. Na mesma noite em que “Narradores de Javé”, de Eliana Caffé, se consagra como o grande vencedor deste ano. Na mesma noite em que a estreante Cléo Pires ganha o prêmio de melhor atriz e é intensamente cortejada por José Wilker, que de joelhos comenta: “De vez em quando a eternidade produz uma estrela e o Festival do Rio também. Este ano o festival produziu Cléo Pires.”

 

“Narradores de Javé” ainda terá seu devido valor no momento em que for lançado em circuito e tiver sido exibido para o público em geral. Prêmios não são parâmetros para qualidade. Vale comentar o abismo causado pela premiação de “Durval Discos” ano passado no Festival de Gramado. Houve quem aplaudisse de pé, assim como pessoas que acreditavam estarem presenciando um mal-entendido. Cléo Pires é filha de atriz (Glória), e sua participação no filme “Benjamim”, de Monique Gardenberg, promete apontar para um futuro promissor.

 

Já Rogério Sganzerla recebe um prêmio especial que vem em um momento especial de sua carreira. Seu último trabalho, o aguardado “O Signo do Caos”, foi finalmente exibido. Filmado em 1999, a fita passou por uma trajetória que mais parece uma odisséia. No auge do conturbado caminho, parte da película ficou amassada, riscada, deteriorada. Foi necessário uma “operação de resgate” que conseguiu fazer uma digna restauração na parte estragada. Mesmo assim, ao assistir a cópia, nota-se a falta de cuidado a que foi submetida (no entanto, a textura “suja” realça o aspecto noir dos planos em preto e branco). 

 

 “O Signo do Caos” fala exatamente do boicote e, conseqüentemente, destruição de uma obra cinematográfica – e aí esbarramos em um objeto de devoção de Sganzerla, “It’s All True”, filme-aborto de Orson Welles. Ironicamente, deduz-se que “Caos” quase foi vítima da falta de cuidados, assim como o filme que figura dentro dele. Talvez por essa razão é que o cineasta rotule seu filme como o anti-filme. Por mostrar a aniquilação de uma obra de grande relevância e quase ter sua obra igualmente aniquilada.

 

Rogério Sganzerla teve uma estréia cinematográfica explosiva. Aos 22 anos dirige “O Bandido da Luz Vermelha”, divisor de águas no cinema brasileiro; para muitos o filme de maior relevância estética após “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha; o maior representante do cinema marginal. Junto com Júlio Bressane funda a “Belair”, produtora que faz 7 filmes em 3 meses de muita criatividade artística, momento único no cinema brasileiro.

 

Mas voltemos ao presente. “O Signo do Caos” é o filme mais importante dos últimos anos. Incontestavelmente o mais demorado. “Merece ser exibido apenas em um mictório infecto”, afirma repetidamente durante o longa Dr.Amnésia, mais um personagem bitolado da galeria Sganzerliana. É o último filme realmente marginal (a obra recente do Bressane é plasticamente muito bem arrumadinha).