Seminário que reúne golpistas em Lisboa é esvaziado sob protestos da resistência

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Publicado terça-feira, 29 de março de 2016 as 14:23, por: cdb

Na noite passada, a embaixada brasileira em Portugal promoveu um amargo coquetel para os integrantes do seminário. A ausência de autoridades e de figuras exponenciais da política lusitana foi percebida no salão alugado para o evento

 

Por Redação, com agências internacionais – de Lisboa

O polêmico seminário organizado nesta capital, pela instituição privada à qual é ligado do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), marcou, nesta terça-feira, um novo front para a militância de esquerda na luta contra o golpe de Estado, em curso no outro lado do Atlântico. O encontro, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, arrebanhou a nata do movimento golpista — entre eles o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, que desistiu na última hora —, com direito a mensagem de saudações do vice-presidente da República, Michel Temer, que também fez forfait. Embora distantes da Capital Federal do Brasil, epicentro dos acontecimentos, os participantes da conferência encontraram a barreira da resistência ao golpe.

Temer não foi ao seminário em que Serra recebeu uma salva de vaias, aos gritos de "Facista!" e "Não Vai Ter Golpe!"
Temer não foi ao seminário em que Serra recebeu uma salva de vaias, aos gritos de “Facista!” e “Não Vai Ter Golpe!”

Nesta manhã, o senador José Serra (PSDB-SP) recebeu uma salva de vaias ao chegar para o assim chamado IV Seminário Luso-Brasileiro de Direito. Um grupo de cerca de 100 manifestantes em defesa da democracia e do mandato da presidenta Dilma Rousseff recebeu o tucano aos gritos de “Fascista!”, enquanto outros bradavam: “Não vai ter golpe!”. Diz o programa do seminário que o objetivo da reunião, em solo lusitano, é o debate sobre a Constituição brasileira, sob o tema “Constituição e Crise – A Constituição no contexto das crises política e econômica”.

O governo português recebeu mal a iniciativa. Na noite passada, a embaixada brasileira em Portugal promoveu um amargo coquetel para os integrantes do seminário. A ausência de autoridades e de figuras exponenciais da política lusitana foi percebida no salão alugado para o evento.

Seminário às moscas

O ministro do STF Dias Toffoli e o presidente do Tribunal de Contas da União, Aroldo Cedraz, preferiram não comentar o fiasco para o qual foram convidados. Do lado governista, ainda que deslocados em meio aos defensores do golpe de Estado, no Brasil, compareceram o senador petista Jorge Viana e o ex-advogado-geral da União Luiz Inácio Adams. Quanto aos portugueses, nem o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, ou o ex-vice-primeiro-ministro Paulo Portas, muito menos o recém-empossado presidente da república, Marcelo Rebelo de Sousa, responsável pelo discurso de encerramento do seminário, todos ligados à centro-direita, estes resumiram suas participações ao mínimo possível.

Tão logo foi divulgada a lista de participantes, na semana passada, a mídia independente — nos dois países — passou a noticiar a realidade dos fatos, ou seja, tratava-se de mais uma ‘desculpa’ dos organizadores para que os políticos envolvidos na tentativa golpista se reunissem, no exterior, para debater sobre o impredimento da presidenta Dilma e um governo de Temer, caso a aventura em que se encontram chegue ao Palácio do Planalto.

Esta polêmica caiu feito uma bomba em Portugal. Assim que souberam do que se tratava, realmente, o encontro, tanto o presidente Rebelo de Sousa quanto o ex-premiê Passos Coelho pediram que seus nomes fossem retirados do programa. A justificativa oficial em ambos os casos foi uma superposição nas agendas, mas não tardou a ser publicado, por analistas políticos portugueses, que a decisão se deveu às controvérsias sobre o verdadeiro objetivo da reunião.

— Não há dúvidas de que eles desistiram de participar por causa da maneira como o seminário tem sido tratado pela mídia e o governo brasileiro. Nem o presidente nem o ex-premiê querem correr o risco de ficar associados a uma iniciativa que possa ser entendida como um ato político da oposição. O Brasil passa por um momento muito delicado, e a elite política portuguesa vai adotar um posicionamento muito pragmático diante do atual cenário — disse a jornalistas o cientista político luso António Costa Pinto.

Sinal de alerta

Para Costa Pinto, uma eventual participação da liderança política portuguesa teria uma implicação direta nas relações entre Brasil e Portugal.

— A presença do presidente Marcelo certamente seria encarada pela presidente Dilma e a situação brasileira como uma ação hostil, e justamente por isso ele desistiu. Já Passos Coelho planeja ser primeiro-ministro novamente e, por isso, não tem nenhum interesse em ficar associado a esse encontro — afirmou.

O comentarista político luso José Adelino Maltez foi mais adiante. Ele entende que a presença no encontro seria um risco desnecessário para um presidente que tomou posse há menos de um mês.

— Num momento de elevada tensão, a presença de Rebelo de Sousa poderia ser vista como um apoio aos defensores do impeachment, e isso não seria nem um pouco interessante para ele — afirmou o professor da Universidade Técnica de Lisboa.

Para os analistas da política lusitana, porém, o seminário mantém uma aparência acadêmica, mas a conotação golpista revelada nos últimos dias foi um sinal de alerta aos líderes portugueses.

— Não acredito que esse encontro tenha sido planejado com outros fins que não os apresentados por seus organizadores, mas isso não significa que o momento e o contexto em que ele acontece devam ser ignorados — conclui Costa Pinto.

Assista, a seguir, ao protesto da resistência brasileira contra o golpe:

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