Seduções totalitárias

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quinta-feira, 5 de junho de 2003 as 21:59, por: cdb

Admita-se, para estimular o jogo com a dúvida, que o vice-presidente José Alencar esteja sendo apressado em suas críticas à política de juros altos. Se isso ocorre, não será, naturalmente, pela sua índole. Alencar é um homem de negócios, isto é, um homem construído no diálogo, no pacto: toda operação comercial é uma ação semelhante às ações políticas. Ao explicar a habilidade política dos catalães, Jordi Pujol disse, certa vez, que “los catalanes somos comerciantes, y los comerciantes pactan siempre”. Logo, Alencar não pode ser qualificado como cabeça dura. Se Alencar não está convencido da necessidade de tais taxas de juros é porque dela não o convenceram. De duas, uma: os argumentos da equipe econômica foram insuficientes, ou não houve interesse da equipe econômica em os oferecer.
É aqui, que encontramos outro aparte da dúvida: a equipe econômica dispõe de tais argumentos, ou deles não dispõe. Se deles não dispõe, estão corretos os que a criticam, ao registrar que, nela, nada de essencial mudou em janeiro, a não ser alguns nomes, ao considerá-la, na melhor das hipóteses, incompetente e, na pior, subordinada diretamente ao interesse dos banqueiros. Se a equipe dispõe dos argumentos de convicção, mas não os usa, seus defensores poderão explicar que se trata de segredos de estado, que, revelados, causariam danos à estratégia de governo. Mas se essa explicação é razoável, em se tratando do grande público, não caminha, quando se trata do vice-presidente. O vice-presidente deve merecer tanta confiança e tanto respeito quanto o presidente. Ao elegê-lo, o povo designou-o para, em qualquer eventualidade, assumir a chefia do Estado e do Governo.

A dúvida sempre leva a uma suspeita, que já transita nos meios bem informados de Brasília: não estariam os ágeis e veteranos membros da equipe econômica, ao menosprezar os que não pertencem à sua grei, vendo, no médico Palocci, o outsider que podem monitorar? Mais ainda, não estariam, em sua manobra, contaminando o governo com a sedução do totalitarismo, ao acertar uma aliança com os moderados, convencendo-os, como está convencida a “oposição”, de que não há alternativa ao neoliberalismo pelo qual o governo passado optou?

O Sr. Delfim Netto, de cuja inteligência é perigoso duvidar, sempre se refere a seu tempo de grão-vizir de governos militares, como “o período autoritário”. Para um economista, nada melhor do que o autoritarismo. Ele parte do raciocínio matemático, mas os números são – e voltamos a Delfim – a-éticos. Nada mais certo de que os juros altos, ao impedir a produção, impeçam o consumo e que, sem consumo, o dinheiro passe a valer mais – porque, a rigor, se produz menos dinheiro. Nessa equação singela não entram os seres humanos, que necessitam de comida, de roupa, de remédios, de educação e também de um pouco de sonho, coisas que, desde que o inventaram, exigem dinheiro, e o dinheiro só se obtém com o emprego, o trabalho, a produção.

Em texto clássico, atribuído a Aristóteles (e de autoria contestada), o autor faz excurso interessante a respeito da moeda, vista como elemento de justiça, ao igualar coisas desiguais, e pondera que se se colocarem, juntas, duas dracmas, no final do ano ali estarão apenas duas dracmas, sem que do convívio íntimo haja nascido um só óbulo. Mas em nosso caso, o dinheiro captado pelos banqueiros, e emprestado ao governo, rende mais do que coelhos em cio induzido.

Lula se queixa dos banqueiros, mas está falando sozinho. O Banco Central é o que seu nome indica: a central dos bancos. Sua natureza é bancária, sua ética é a ética bancária, seu negócio é dinheiro. Muitas vezes nos esquecemos que o Banco Central norte-americano, o FED, foi criado em 1913, exatamente como um sistema de seguros, para salvar os bancos na hora do aperto, tendo em vista as crises bancárias sucessivas no país, desde o rumoroso caso da disputa entre o presidente Jackson e os banqueiros da Filadélfia, na terceira década do século 19. É assim, em defesa dos banqueiros, que t