Scorsese assina biografia de Hughes em O Aviador

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Publicado sábado, 12 de fevereiro de 2005 as 10:12, por: cdb

Depois de anos durante os quais foi retratado apenas em versão para a TV (“The Amazing Howard Hughes”) ou em excêntricos papéis coadjuvantes (“Melvin e Howard”), o inimitável industrial bilionário Howard Hughes finalmente é mostrado na telona num retrato suficientemente amplo para conter seus diversos aspectos fascinantes e grandiosos, graças a Martin Scorsese e a “O Aviador”.

Trabalhando com muitos de seus colaboradores anteriores, Scorsese criou um épico biográfico de aparência belíssima e com atuações fantásticas, candidato fortíssimo a vários Oscar.

Entretanto, há algo de estranho na maneira como o filme, em última análise, impede o espectador de ser levado junto em sua viagem emocionalmente turbulenta.

Mesmo assim, embora precisemos nos contentar em apenas acenar desde fora, o fato é que não faltam pérolas cinematográficas a admirar em “O Aviador”.

Muito tempo antes de Donald Trump, Richard Branson ou a TV-realidade, houve um homem que pode ser visto como modelo em matéria de empresários bilionários, motivados e motivadores, e Leonardo DiCaprio o representa com energia concentrada e bravura confiante.

É o melhor trabalho do ator até hoje, uma performance que não tem dificuldade alguma em dissipar o receio dos céticos que achavam que DiCaprio não era o homem certo para o papel.

Após um prólogo breve que mostra a infância de Howard Hughes e ajuda a explicar sua personalidade, o roteiro de John Logan (“Gladiador”) mergulha diretamente nas filmagens de “Hell’s Angels” (final dos anos 1930), o caro épico aéreo que o herdeiro ingênuo e ambicioso financiou com o dinheiro da empresa de sua família, a Hughes Tool.

O filme transformou Hughes, que mal chegara aos 25 anos, numa celebridade que era vista com frequência na boate Cocoanut Grove, cortejando as mulheres mais glamurosas da época. No entanto, apesar de contar com Katharine Hepburn (Cate Blanchett, perfeita no papel) e Ava Gardner (Kate Beckinsale, idem) entre seus pares românticos regulares, nenhuma mulher seria capaz de competir com o grande amor da vida de Hughes: a aviação.

Dado que Scorsese é conhecido por sempre ter tido medo de aviões, o diretor (que assumiu o projeto após a desistência de Michael Mann) deixa a ironia de lado. Com um trabalho impressionante de efeitos digitais nesta fase tardia de sua carreira, ele brinda o espectador com uma série de sequências espetaculares que mostram desde recriações das imagens de “Hell’s Angels” até o devastador acidente aéreo de Howard Hughes, quando seu avião caiu sobre Beverly Hills.

Apesar desses acontecimentos grandiosos, mostrados com a ajuda de áudio de noticiários da época, Scorsese e Logan conseguem conservar a narrativa com um pé no chão, mudando alguns dos fatos reais de ordem, quando necessário, para ir mostrando o avanço dos comportamentos perturbadores de Hughes, que aos poucos foram ultrapassando os limites da mera excentricidade.

Com a exceção de algumas cenas em que DiCaprio não consegue convencer, fisicamente, como um homem na casa dos 40 anos, o ator tem uma performance forte e plenamente realizada.

Além de Blanchett e Beckinsale, “O Aviador” também traz boas participações de Alec Baldwin no papel do rival de Howard Hughes, o visionário Juan Trippe, da Pan Am; Alan Alda como o adversário do magnata, o senador Owen Brewster, e o sempre confiável John C. Reilly no papel de seu fiel braço direito, Noah Dietrich.