Scorsese analisa o cinema americano em livro

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Publicado quinta-feira, 13 de janeiro de 2005 as 14:39, por: cdb

Poucos cineastas norte-americanos da atualidade possuem um olhar tão autoral e singular quanto Martin Scorsese. O homem que legou ao mundo obras seminais como Touro Indomável, Os Bons Companheiros e Cassino (só para citar três exemplos de uma vasta e fértil filmografia) tornou-se também, ao longo dos anos, um dos pensadores mais lúcidos dos mecanismos que envolvem a arte de filmar. É o que se pode conferir no livro Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano, recém-lançado pela CosacNaify, misto de declaração de amor e acerto de contas de Scorsese com os filmes que fizeram sua cabeça na infância e na juventude.

Requintada e ricamente ilustrada, a obra é na verdade uma transcrição literal do documentário Cem Anos de Cinema, composto de uma série de três programas de 75 minutos cada, que o cineasta dirigiu e apresentou sob encomenda para o British Film Institute, como parte das celebrações dos cem anos de criação da arte. Lançado em 1995 e exibido no mesmo ano pela extinta Rede Manchete, o documentário pode ser encontrado nas locadoras em VHS (a versão em DVD deve ser lançada este ano), dividido em três fitas.

Se não possui o encanto que é ver o criador de Táxi Driver apresentar pessoalmente os filmes da sua vida ou mesmo os trechos desses filmes, muitos deles raros, Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano tem ao menos a vantagem de perenizar as informações e facilitar sua consulta. Não houve perdas na transposição para a linguagem escrita: Scorsese mantém sua verve intacta, dialogando com o leitor de forma clara e acessível. As imagens foram substituídas por fotos e descrições das cenas e diálogos. O livro foi feito em colaboração com o roteirista e historiador Michael Henry Wilson (co-autor da obra).

Logo de início, Scorsese deixa claro que não pretende fazer um apanhado dos mais de 100 anos de história do cinema americano. Por isso ficaram de fora ou foram abordadas de forma superficial as obras de realizadores do porte de Alfred Hitchcock, Sam Peckinpah, John Huston, William Wyler e Ernst Lubitsch, entre outros. Mas, para deleite dos admiradores, estão lá, em doses fartas, figuras como Billy Wilder, Stanley Kubrick, Orson Welles, Elia Kazan e o Otto Preminger dos bons tempos, entre outros gênios da sétima arte.

O diretor dá preferência a suas próprias reminiscências, que incluem obras como Duelo ao Sol (King Vidor), que assistiu com a mãe quando tinha 4 anos de idade e ficou para sempre na sua memória, e Assim Estava Escrito, de Vincente Minelli (que o livro grafa erradamente como “Vincent”), considerado por ele “o melhor drama sobre as batalhas criativas de Hollywood”. Há capítulos dedicados exclusivamente aos gêneros musical, western e de gângster, além de reflexões sobre o papel do diretor (que atuaria –numa alusão metafórica – como ilusionista, contrabandista e iconoclasta).

Scorsese destaca a relação diretor-produtor num tempo em que os grandes estúdios ainda não tinham sido cooptados por megacorporações e conservavam suas características, definidas pela expressão studio system. Ou seja, um filme da MGM conservava obrigatoriamente uma aura romântica (o lacrimoso A Dama das Camélias, de George Cukor, é um bom exemplo), enquanto a Fox investia em filmes de temática social (As Vinhas da Ira, de John Ford) e a Warner pregava o realismo sem artifícios (Inimigo Público, de William Wellman).

Os filmes das décadas de 30 a 60 compõem a maioria maciça de Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano, com exceção de duas produções dos anos 70 (Barry Lindon, de Kubrick, e O Show Deve Continuar, de Bob Fosse) e uma dos 90 (Os imperdoáveis, de Clint Eastwood). Das duas, uma: ou Scorsese não encontrou nada muito interessante entre as produções mais recentes ou se sente menos confortável em opinar sobre a obra de seus contemporâneos.

Uma pista talvez esteja na confissão que ele faz em um trecho do livro: “Minha paixão