Saddam Hussein: um julgamento justo?

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Publicado domingo, 12 de novembro de 2006 as 12:26, por: cdb

Esta semana o ex-ditador do Iraque foi condenado à morte na forca por um Tribunal Especial em Bagdad. Além dele, seu meio-irmão e comandante da poderosa e temível Mukhabarat – o Ministério da Informação, responsável pela vigilância e perseguição de oponentes – Barzan Ibrahim al-Tikriti e o ex-vice presidente Taha Yassin Ramadan, que exercia o controle das polícias secretas do país, também foram condenados à morte.

Iraque: a loucura de Churchill?
Saddam Hussein nasceu 28 de abril de 1937, poucos anos depois de Churchill, num só fim de tarde num hotel no Cairo – tendo como conselheiro o Coronel Lawrence (conhecido como Lawrence da Arábia – ter decidido criar um novo país: o Iraque. Muitos historiadores, então, trataram a decisão de Churchill como um capricho: o país não possuía fronteiras definidas ou sequer um núcleo social e étnico homogêneo, reunindo populações que jamais haviam vivido juntas.

Este novo país, que poucas vezes havia existido na história como entidade política autônoma (fora sempre dividido entre babilônios, ao sul, e assírios ao norte e depois conquistado por gregos, persas, árabes e em fim pelos turcos até 1919. Neste mesmo ano as províncias turcas – villaret – de Mossul, Bagdá e Basra passaram, por definição da Liga das Nações, para o Império Britânico. Já naquele momento o petróleo – principalmente para os navios da frota britânica – já define o interesse ocidental, além do ser o país, até então denominado de Mesopotâmia, ponto fundamental da rota britânica para seu Império das Índias (via Gibraltar, Malta, Chipre, Suez, Aden, Iraque e daí para as Índias (hoje Paquistão e União Indiana).

Contudo, após uma rápida revolta dos árabes, os ingleses perceberam o alto custo da manutenção do país, provocando uma resposta brutal: a aviação inglesa usava o Iraque como um campo de provas para esta nova arma e Sir Winston Churchill não teve qualquer puder em usar armas químicas para derrotar a revolta nacionalista árabe.

Um rei fantoche – Faiçal, da família hachemita originária de Meca e presumivelmente o último descendente do Profeta Mohammed, foi indicado – sob pressão do Coronel Lawrence – para governar a velha Mesopotâmia.

A monarquia, comprimida entre a dependência frente aos ingleses e o nacionalismo árabe, foi finalmente derrubada em um banho de sangue em 1958. A República instalada era frágil e marcada por conspirações e golpes, até que o presidente Abd al-Karim Qasim é derrubado e morto em 1963. A grande força que surge no cenário político do país passa a ser o Partido Baath (“Renascimento” em árabe), que se inspira largamente no presidente nacionalista do Egito, Gamal Abel Nasser. O Baath toma o poder, em fim, 1968, iniciando um amplo programa de reformas e modernização do Iraque, incluindo-se aí a nacionalização da Iraq Oil Company, até então sob controle britânico.

O Partido Baath ostentava um programa de ações socializantes, secular – fortemente anti-religioso – afastando da vida pública os inúmeros líderes religiosos muçulmanos e atraindo cristãos e laicos para o governo. Além disso dedicava grande ênfase na unidade árabe e muita energia na condenação de Israel, considerado um enclave colonial do Ocidente no Oriente Médio. Entre os homens que ascendiam ao poder com o Baath estava o jovem Saddam Hussein, responsável pela segurança interna – quer dizer, pela repressão aos opositores – a criação de milícias autônomas em relação às FFAA, de cuja lealdade desconfiava intensamente.

Saddam: um ditador cruel
Saddam talvez fosse, no fundo, um dos críticos da “loucura de Churchill”. Sabedor das fragilidades do país, da ausência de uma historia comum que avalizasse a existência do Iraque como unidade política unificada, buscou dois caminhos de garantia para viabilizar o país. De um lado, como sempre o fazem os ditadores, manipulou e usurpou a história para justificar a existência do Iraque. Da antiguidade trouxe Hamurabi e Nabucodon