Rússia exibe geração de jovens e milionários ‘empreendedores’

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Publicado quinta-feira, 3 de julho de 2003 as 13:31, por: cdb

A compra do Chelsea, um dos maiores clubes de futebol de Londres, pelo bilionário russo Roman Abramovich, de 36 anos, pôs em evidência toda uma nova geração de empresários da ex-União Soviética.

Tudo começou com os “sete grandes”, os empreendedores que adquiriram sua sabedoria nas ruas e que, roubando e pedindo esmolas e empréstimos, construíram impérios financeiros sobre as ruínas da outrora poderosa economia soviética.

No início dos anos 1990, o governo estava desesperado para vender enormes ativos estatais que tinham se tornado um passivo, mas ninguém na Rússia tinha tanto dinheiro.

Uma equipe de jovens reformadores liderados por Anatoly Chibais imaginou um esquema através do qual todos os cidadãos russos receberam um bônus, representando sua parcela na riqueza nacional.

Os sete grandes

Empreendedores com a sabedoria das ruas compraram esses papéis e acumularam enormes quantidades de bônus que usaram para adquirir propriedades estatais em leilões especiais.

Os leilões estavam comprometidos por acertos de preços nos bastidores, mas o governo via isso como um mal menor se comparado ao peso das indústrias subsidiadas sobre o orçamento público.

E, é claro, havia conversas generalizadas sobre repasses disfarçados para burocratas que gerenciavam as vendas.

Como resultado, sete empresários reuniram quase a metade dos ativos financeiros da Rússia.

‘Bobos’

Entre os primeiros, e o mais rico, estava Boris Berezovsky, que começou seu império com um acordo que lhe dava direitos exclusivos na venda de carros Lada.

A beleza do esquema é que a fábrica estatal ainda estava vendendo Ladas a custos subsidiados, enquanto a concessionária por preços extorsivos de mercado, que subiam por causa da alta demanda.

E só “bobos” pagavam impostos naqueles dias.

Como o próprio Boris Berezovsky disse mais tarde, não havia um único empreendedor na Rússia que não desrespeitasse a lei pelo menos uma vez.

Eles também se engajaram em guerras brutais entre si na disputa pelas melhores fatias do bolo estatal.

Coalizões se formavam e eram abandonadas, aliados procurados e deixados para trás.

Para vencer era decisivo ter padrinhos em altos lugares, e o Kremlin era o prêmio mais alto.

Órfão

Boris Berezovsky conseguiu chegar até à família do presidente Yeltsin, tornando-se amigo de sua filha.

Ele então apresentou seu jovem protegido e parceiro de negócios Roman Abramovich ao grupo do Kremlin.

Órfão aos quatro anos de idade e educado por parentes em uma remota cidade do norte da Rússia, Abramovich já era então um bem-sucedido negociante de petróleo.

Seu primeiro negócio, em 1992, resultou em um processo criminal contra ele, mas as acusações foram retiradas mais tarde.

Berezovsky e Abramovich uniram suas forças na batalha pela Sibfnet, a quinta maior empresa de petróleo da Rússia.

Exílio

Quando, em 1996, ficou claro que o presidente Yeltsin estava perto de perder o poder para os comunistas na eleição presidencial, todos os oligarcas enterraram suas diferenças e financiaram sua reeleição.

Em troca, ganharam um poder ainda maior no Kremlin. Berezovsky se descrevia como um fazedor de reis, imagem que ele tentou cultivar também com o presidente Putin.

Mas eles rapidamente se desentenderam. Berezovsky teve que fugir para Londres, em um exílio imposto por si mesmo.

Mas não Abramovich. Ele disputou e ganhou o cargo de governador de Chukotka, uma região embarrada, porém rica em minérios nos estreitos do Alasca.

O empresário injetou muito dinheiro em sua infra-estrutura, ganhando os corações dos moradores.

Mas seus negócios estão se tornando muito mais amplos. Considerado o segundo homem mais rico da Rússia, ele está diversificando o império, construído principalmente nos setores de petróleo e alumínio, entre outros.

Ocidente

Roman Abramovich não é o primeiro, e com certeza não será o último magnata russo a se estabelecer no Ocidente, particularmente