Rússia-Estados Unidos, fim da confrontação?

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Publicado domingo, 25 de novembro de 2012 as 10:08, por: cdb

Outra vez, a chegada ao poder do presidente Barack Obama estende uma miragem sobre uma quase possível melhoria das relações dos Estados Unidos com a Rússia, o equivalente ao fim da confrontação, como almejam muitos.
No entanto, as contradições persistem em vários campos, onde se cruzam os interesses de uma e outra parte, nos âmbitos político, econômico ou militar.

O primeiro mandato de Obama não só deixou matérias pendentes na agenda, como aumentou a brecha em temas de política exterior, e em questões de paridade armamentista com o escudo antimísseis como o principal pomo da discórdia entre Moscou e Washington.

Obama anunciou em setembro de 2009 com grande pompa que anulava o projeto do sistema antimísseis para a Europa, elaborado por seu antecessor George W. Bush, causa da deterioração dos laços, nunca antes visto desde a década de 1990.

Em seu lugar, apresentou um moderno programa de instalação ofensiva dos componentes estratégicos, com projeções de ampliar ao centro e sul do Velho Continente.

A Rússia, ante os fatos, não só advertiu que se romperia a paridade armamentista, como ameaçou em estabelecer em Kaliningrado (o extremo mais setentrional do país), os mísseis táticos Iskander, se vingassem os planos, apoiados pela Organização do Tratado Atlântico Norte (Otan).

A Casa Branca não deu a Moscou as garantias jurídicas de que o escudo não ameaçará a segurança nem o potencial estratégico russo, enquanto avança em especificar os planos belicistas, com o apoio de seus aliados.

A respeito, o vice-chanceler Serguei Ryabkov foi mais longe com as advertências do Kremlin.

Deu como provável a retirada de seu país do Tratado para a Redução de Armas Estratégicas (START-III, por suas siglas em inglês), em resposta aos desacordos em torno da sombra de segurança que desenharam os Estados Unidos, nas proximidades da Federação.

Ainda que tenha dito que não era o palco mais desejado no desenvolvimento dos acontecimentos, expressou definitivamente que a Rússia não pode deixar sem resposta o fato de que suas reivindicações e interesses sejam ignorados.

Washington conseguiu a aprovação da Bulgária, Espanha, Turquia e Romênia para instalar nesses territórios componentes estratégicos do escudo, em suas variantes naval e terrestre.

Visto como a pedra angular nas negociações sobre o desarmamento, o START-III foi assinado pelos presidentes Dmitri Medvedev e Barack Obama em 8 de abril de 2010, em Praga, e entrou em vigência em 5 de fevereiro de 2011, para um período de 10 anos. Durante a assinatura do tratado, Moscou advertiu que poderia ser retirado se o sistema antimísseis pusesse em perigo os interesses da Rússia em matéria de segurança.

O Ministério da Defesa e especialistas militares percebem com ceticismo um virtual progresso no tema, em razão de que a administração de Obama não tem dado sinais claros de que terá em conta os interesses russos, quanto a segurança e equilíbrio armamentista.

Queremos um documento que reflita de maneira vinculante a não orientação do escudo contra as forças estratégicas nucleares russas e relacione o conjunto de critérios técnico-militares, pelos quais possamos concluir que as obrigações não serão violadas, explicou Ryabkov.

Para o vice-primeiro-ministro Dmitri Rogozin, o sistema antimísseis desatará uma corrida armamentista, pois o possível aparecimento de navios de guerra estadunidenses dotados do sistema antimísseis Aegis próximo à costa russa provocará sem dúvida uma drástica reação de Moscou.

No âmbito político, a iniciativa patrocinada por setores conservadores dentro do Congresso estadunidense para adotar a lei Magnitsky, que supõe um pacote de sanções contra autoridades russas, acrescentou a linguagem de confrontação.

O porta-voz da Chancelaria da Rússia, Alexander Lukashevich, catalogou de hostis e provocadores o projeto de lei sobre a lista de Magnitsky e a emenda Jackson-Vanik, vigente desde 1974, contra a extinta União Soviética.

A dita lista leva o sobrenome do auditor do Fundo de Investimentos Hermitage Capital, do estadunidense William Browder, que faleceu na prisão, em 2009.

O regulamento supõe a proibição de rendimento a território estadunidense de servidores públicos russos culpados pela morte de Magnitsky (os vinculados com os órgãos de segurança e o sistema penitenciário), e o congelamento de suas contas em bancos norte-americanos.

Advertiu o diplomata que se o Senado estadunidense aprova o ato legislativo e deixa, por outro lado, intacta a emenda Jackson-Vanik, a Rússia responderia duramente, em alusão a ações recíprocas.

A Câmara de Representantes sancionou no dia 16 de novembro de forma simultânea, tal como se tinha anunciado, o projeto da “lei Magnitsky” e a anulação da emenda Jackson-Vanik. Em caso de o Senado dar a anuência, a normativa passa às mãos do presidente Obama.

O politólogo Vyacheslav Nikonov associou a medida aos “fortes ânimos antirrussos que ainda predominam no Congresso norte-americano”.

Considerou inquietante que o regulamento sobre a lista outorga prerrogativas ao Departamento de Estado para a adoção de represálias contra aquelas pessoas que considere violadoras dos direitos humanos, no conceito preconcebido por Washington.

E pelo fato, ademais, acrescentou que deixa aberta a possibilidade de completar a lista com outras figuras que caiam dentro da órbita da censura.

Nikonov qualificou esse passo como ato sem precedentes nas relações bilaterais, pois inclusive, recordou, na época da União Soviética nunca se produziu uma lista dessa natureza.

Estimou que, evidentemente, Moscou reagirá negativamente, e mencionou a possibilidade da redação pelo Parlamento de uma lista similar com inclusão de estadunidenses que violem os direitos humanos, não só em relação aos russos, mas em outras partes do mundo.

Para a diretora geral do Instituto de Investigações e Iniciativas de Política Exterior, Veronica Krasheninnikova, à margem do discurso oficial, existe uma política real nos Estados Unidos.

São, afirmou a especialista, precisamente as ações concretas da administração norte-americana as que devem ser analisadas, com relação à Rússia, inclusive.

Em sua opinião, no seio do “establishment”, a Rússia não tem amigos, sobre o que os fatos falam por si sós.

Contrário às correntes adversas, o presidente Vladimir Putin, e seu premiê, Dmitri Mevdvedev, estenderam de novo a Obama o tapete da paz, como quimera do fim da confrontação.

Prensa Latina

 

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