Roménia: “Pedimos desculpa por não produzirmos tanto quanto nos roubam”

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Publicado quarta-feira, 25 de janeiro de 2012 as 20:23, por: cdb

Os planos para privatizar a saúde provocaram várias manifestações nas ruas das grandes cidades da Roménia há mais de uma semana. As principais reivindicações são transparência e responsabilidade na tomada de decisões do governo. Críticas à corrupção são visíveis em cartazes. Por Claudia CiobanuArtigo |26 Janeiro, 2012 – 01:10Protestos na Roménia – Foto de Julia Beurq do site roumanophilie.wordpress.com

Esta privatização da saúde proposta pelo governo de centro-direita é parte do programa de austeridade, o mais rígido da Europa, imposto em 2009 como condição para receber crédito de 20 mil milhões de euros do Fundo Monetário Internacional (FMI). Nesse contexto, os salários dos funcionários públicos foram reduzidos em 25% e houve cortes na segurança social.

Os protestos eclodiram agora em resposta a um projeto de lei para privatizar o sistema de saúde apresentado pelo presidente da Roménia, Traian Basescu, no começo deste mês, que foi redigido por uma comissão sem debate público. A iniciativa propõe que todos os pacotes de seguro médico, incluindo a cobertura universal básica, seja gerida por fundos privados, como os serviços de emergência.

Isso levou o secretário de Estado, Raed Arafat (criador de um sistema de ambulâncias eficiente que funciona em muitas cidades romenas), a afirmar que a implementação da nova lei destruiria esta iniciativa. Para a desmoralizada população foi a gota de água. Centenas de milhares de pessoas protestaram nas ruas de Bucareste e de outras cidades.

“Os médicos de família não querem uma reforma do sistema de saúde, nem os empregados do sistema de emergência e tampouco uma parte da população”, afirmou Basescu no dia 13 ao retirar o projeto de lei, ao que parece, sem distinguir entre reforma e privatização. Em 13 ocasiões nos últimos quatro anos, o Poder Executivo evitou o parlamento para leis importantes, bem mais do que nas quatro vezes em que o mesmo aconteceu no governo social-democrata, entre 2000 e 2004.

O governo Basescu sancionou em 2011 uma lei para proibir concentrações políticas sem autorização perto de instituições estatais, bem como outra para que as empresas privadas realizassem expropriações em nome do Estado. Esta última foi considerada uma ferramenta direta para ajudar a sociedade canadiana Gold Corporation a ganhar uma batalha de longa data no âmbito local para explorar ouro, usando cianeto, em Rosia Montana no oeste da Roménia.

No final do ano passado, houve manifestações públicas contra as táticas do governo. Usando os nomes dos indignados espanhóis ou do movimento norte-americano Ocuppy, jovens protestaram nas grandes cidades contra a lei de expropriação e também pediram melhor representação.

Nos centros das grandes cidades há cartazes com frases contra o governo, imagens associando Basescu com o ex-presidente Nicolae Ceausescu (1918-1989), pedidos de democracia direta, críticas pela corrupção (“pedimos desculpa por não produzirmos tanto quanto nos roubam”) e expressões desesperadas (“temos fome”). Também se pode ver outras reivindicações mais específicas como deter o projeto Rosia Montana, assistência médica gratuita, educação decente para todos e direitos para os deficientes.

“Há muita confiança entre as pessoas, é fácil falar de qualquer coisa, apesar de haver muitos grupos sociais e posições políticas presentes, desde aposentados que chegaram à praça para passar a tarde e senhoras da classe média até ativistas, punks, anarquistas, jovens boémios de classe alta e torcedores de clubes de futebol”, disse Mihai Likacs, um dos participantes. “Todos buscam o mesmo, participação e democracia direta. Os representantes políticos que tentaram se aproximar da praça foram impedidos pelos manifestantes. O mesmo ocorreu com organizações fascistas como a Nova Direita, que foi expulsa pelos manifestantes”, contou.

Os protestos ficaram mais violentos nalgumas noites, especialmente nos dias 14 e 15 deste mês, quando foram partidas caixas automáticas e vitrinas de lojas, incendiados contentores de lixo e várias pessoas acabaram feridas por pedras. Diferentes testemunhos responsabilizaram fanáticos torcedores de futebol ou provocadores infiltrados pelo governo, a polícia ou jovens descontentes atentando contra símbolos do neoliberalismo. Os meios de comunicação cobriram amplamente os episódios de violência.

O sociólogo Mircea Kivu considerou que o excessivo interesse na violência prejudica a compreensão do protesto e a sua força. “Identificar os violentos como inimigo comum da polícia e dos manifestantes cria um novo objeto de interesse que substituirá o cerne de mensagem dos protestos: o desespero das pessoas que as levou a ocupar as ruas”, destacou. “Com o debate centrado na violência, o governo pode mostrar-se preocupado, em lugar de atender as reclamações, e os manifestantes passam a defender a não violência em lugar de insistir no aspeto central do protesto”, ressaltou.

“A maioria das pessoas que foi protestar considerou a violência algo sem relação com ela ou com as suas reclamações e mantêm-se afastadas”, disse a especialista em política Oana Popescu. “Uma das principais lições a aprender com os últimos acontecimentos é como integrar as manifestações com as práticas democráticas na Roménia”, apontou Popescu. “É bom que ocorram estes acontecimentos, pois é uma oportunidade para aprender a protestar e a nos expressarmos. Espero que seja uma ocasião para amadurecer politicamente e que não terminemos por ir para casa, felicitando-nos por uma façanha”, acrescentou.

Envolverde/IPS

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