Ritmos brasileiros encantam franceses

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Publicado quarta-feira, 26 de janeiro de 2005 as 16:13, por: cdb

Quinze percussionistas franceses, músicos profissionais, estão no Rio de Janeiro desde a semana passada aprendendo ritmos brasileiros. Na loja Maracatu Brasil, há aulas de pagode (com Esguleba, do Império Serrano e da banda de Zeca Pagodinho), de bateria (com Oscar Bolão, do Garrafeiria e autor de um método do instrumento), de candomblé (com Ney d’Oxóssi), de samba (com mestre Odilon, da Grande Rio) e de estilos regionais, como maracatu e bumba-meu-boi. Até sexta-feira (28), quando está marcado o regresso para a França, eles terão conhecido também onde e como esses gêneros são praticados, pois faz parte do currículo visitar escolas de samba terreiros de candomblé e rodas de choro.

– É uma imersão na música e na cultura brasileiras. A maioria desses músicos já tinha algum conhecimento ou intimidade com o samba e outros ritmos daqui, mas precisava ouvir de perto, ir aos locais onde a música acontece – diz o percussionista Gilbert Carreras, coordenador francês da iniciativa.

Do lado brasileiro está o percussionista Marcos China, que viveu na França entre os anos 80 e 90, ajudou a difundir nossa música e acha que faltava trazer músicos franceses para cá.

– O aprendizado de percussão deles é muito diferente do nosso. Lá, eles vão para a escola, o conservatório, e aqui a gente aprende na marra. Geralmente, só começa a ler música quando já é profissional.

Quem dá as boas vindas é o baterista do Barão Vermelho, Guto Goffi (com Frejat, remanescente da formação original), que abriu a Maracatu Brasil há quatro anos como loja, cujo estoque era formado pelos instrumentos adquiridos em suas turnês pelo Brasil com o grupo de rock.

– Em vez de ficar nos hotéis, aproveitando piscina e mordomias, ia conhecer os músicos das cidades e comprar instrumentos de percussão – conta. Na loja, os clientes amadores queriam aprender a tocar e os profissionais, a ensinar. Logo foram criados cursos que obrigaram Guto a ampliar seu espaço. A vinda dos franceses é decorrência desse movimento.

– Aqui sempre teve muito estrangeiro, numa convivência muito gostosa. Esse convênio é tudo que a gente queria, pois esse negócio de comércio é meio chato.

Marcos China é figurinha fácil na loja/escola desde o início. Além de professor, fabrica instrumentos de percussão. Em suas temporadas francesas, captou o interesse dos músicos de lá por nossa cultura, mas não foi tão fácil formar a primeira turma.

– Era preciso um lugar com uma estrutura tão boa como a Maracatu Brasil e conciliar as agendas dos professores, todos eles cheios de compromissos por serem excelentes músicos – diz ele.

– A greve dos artistas franceses em meados do ano passado também dificultou a divulgação. Mesmo assim, tivemos 20 candidatos para 15 vagas, todos profissionais na ativa há pelo menos quatro anos. No ano que vem, deveremos ter mais e, quem sabe, duas turmas por ano. Na França existem uns 50 grupos que tocam música brasileira.

Entre os primeiros 15 alunos, o sucesso é total. Lyonel Dessus, que mora em Lyon, a segunda maior cidade francesa, já conhecia bem música brasileira, leu muito sobre o País, mas suas expectativas foram superadas.

– Não é tão difícil tocar essa música, mas esse astral é inesperado e é o mais importante – diz.
Aliás, saber tocar percussão, em geral, e a brasileira, em particular, era pré-requisito para o curso. Por isso, mais que aulas teóricas, o importante é a convivência com o País.

– Não há um instrumento ou um ritmo mais fácil, mas apreender o Brasil, saber como e por que essa música acontece aqui é o mais importante – completa Mazzuca Giovanni, italiano radicado na França.

– Eu já estive aqui, passei o carnaval, mas agora saberei tocar e cantar melhor essa música – intervém Philippe Fougerouse.

Marcos China divide a parte pedagógica com os músicos Lucas Ciavatta (autor do Método do Passo, que ensina o caminho das pedras aos pe