Risco de novo ciclone divide especialistas

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Publicado segunda-feira, 29 de março de 2004 as 20:03, por: cdb

Após a passagem neste fim de semana na Região Sul de um fenômeno climático que ainda divide especialistas, os brasileiros talvez se perguntem se agora, além de todos os problemas sócio-econômicos, o país terá que lidar também com desastres naturais. Classificado pela maioria dos meteorologistas do Brasil como um ciclone extratropical, o “Catarina” recebeu de institutos norte-americanos a nomenclatura de furacão e deixou um rastro de milhares de casas danificadas, árvores arrancadas e, até o momento, dois mortos, um em Santa Catarina e outro no Rio Grande do Sul.

“É especulação dizer se isso vai acontecer dessa forma de novo”, afirmou Maria Assunção Dias, coordenadora-geral do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec), órgão do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “Há várias regiões do mundo passando por situações climáticas extremas, como o último verão europeu, e até existe uma hipótese de que o aquecimento global estaria levando a esses extremos, mas não sabemos, é só hipótese”, ressaltou.

Maria Assunção aponta, contudo, que este ciclone foi semelhante a um outro visto em maio de 1994 e que atingiu a região de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Segundo ela, o ineditismo de sua formação deu-se pelo número de dias que passou sobre o mar, quando adquiriu o chamado “olho”, algo nunca visto antes pelos registros de satélite que se têm do Atlântico Sul.

“Não deixa de ser uma coisa fenomenal”, disse o chefe da divisão de meteorologia aplicada do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Expedito Rebello. Ele argumenta, porém, que o mundo parece viver em um momento de grandes variabilidades climáticas, que poderiam estar acontecendo como parte de um ciclo normal da natureza. “Talvez seja por razões decadais, por causa das mudanças que acontecem a cada 10, 20 anos. Podemos estar passando por uma época assim”, disse.

Rebello lembra que nos anos 1970, quando também houve variações significativas de clima, foi até criado um projeto para lidar com o assunto, o Programa Mundial do Clima, sob a direção conjunta da Organização Meteorológica Mundial (OMM), o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e o Conselho Internacional das Uniões Científicas.

Ação do homem?
A comunidade científica ainda tenta entender se esses fenômenos da natureza, o aquecimento global entre eles, são parte de um componente de variabilidade da própria Terra ou se são resultado da ação do homem. “É um assunto delicado”, afirmou o professor Tércio Ambrizzi, do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo. “É muito cedo para saber se o homem está provocando esses impactos”.

Mas, segundo ele, no caso específico do ciclone extratropical deste fim de semana, houve exagero da mídia. Na verdade, a área atingida é propensa a ciclones – em fevereiro de 1999, a região de Osório, no Rio Grande do Sul, também foi bastante castigada pela passagem de um deles. Ele contesta a classificação de furacão dada por seus colegas norte-americanos, salientando que características bastante específicas, como a temperatura da superfície da água do mar em que o ciclone se formou, deixaram claro que tipo de fenônemo era este.

“Os alertas internacionais causaram mais pânico do que ajudaram”, avaliou. “Isso não deveria ter sido tratado com tanto alarde, as pessoas tinham que se precaver, mas destelhamento é uma coisa que acontece por lá. Ciclones não são novidade”.